Vergonha

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Ainda existirá vergonha?

 

Fui convidada a escrever um artigo para o blog de alguém, que me é muito querido e, como tal, não me foi possível recusar, ainda que tema não conseguir honrar o convite.

 

É a primeira vez que o faço, acrescendo o facto de não saber sobre o que falar e também ter tentado encontrar outro tema, que não fosse o mesmo de que todos falam nos dias de hoje: a instabilidade politica que se abateu sobre Portugal.

 

Não consegui lembrar-me de mais nada, tal é a sensação de perplexidade que se apoderou de mim nestes últimos tempos, com esta gincana política de características tão pouco ortodoxas.

Dirão muitos que não, que assim é que está bem, com uma coligação feita à medida dos interesses de cada um, facto que a mim sinceramente, me assusta.

Mas, mais grave, assusta-me a tremenda falta de valores a que vimos assistindo desde há um ano a esta parte e que paradigmatiza, de forma muito evidente, como a ambição, a vaidade e o egoísmo exacerbado, se sobrepõem à dignidade, ao bom senso, à honradez e, no caso em apreço, ao interesse nacional.

 

Meu Deus, quanta falta de vergonha na cara!

 

Todos estamos lembrados de como o Dr. António Costa se mostrou indignado com o resultado das eleições para o parlamento europeu e defendeu que o seu partido merecia outro resultado que não tinha sido alcançado por inércia, falta de coragem politica e pouco carisma do anterior secretário-geral.

Tudo fez então, para conseguir vencer as eleições para secretário-geral do PS o que conseguiu por uma maioria esmagadora, dando uma imagem de “vencedor da Pátria”eprometendo este mundo e o outro.

Eu, que não simpatizava com o seu antecessor, reconheci a forma digna e correta com que enfrentou esta deslealdade de um camarada de partido e, sem alardes e nem mal discência, recatou-se e deixou a vida politica para quem a queria com tanto fervor. 

Logo se começou com uma campanha demagógica, desde logo porque se esqueceu sempre de pedir desculpa aos portugueses pela situação em que o seu partido tinha deixado Portugal, num governo em que ele tinha sido o número dois do primeiro-ministro.

A estratégia – a mais fácil para convencer os mais incautos – foi o ataque feroz à austeridade e as promessas e mais promessas de melhoria da situação.

Os partidos mais à esquerda não se cansaram de lançar farpas aos partidos do governo mas, muitas vezes, eram mais agressivos contra o PS com cujos ideais políticos e programáticos têm divergências quase insanáveis.

 

Sempre os achei mais coerentes, sobretudo o PCP de cuja ideologia politica não partilho mas reconheço a seriedade dos seus líderes e a coragem com que defendem as suas convicções. 

É verdade que austeridade foi e continua a ser dura, violenta mesmo para a grande maioria dos portugueses sendo que, como sempre, são os mais desfavorecidos que pagam mais. Eu própria posso falar de cátedra, porque perdi o meu emprego, onde acreditava ficar até à idade de reforma, por causa da grave crise que se abateu no país com efeitos mais visíveis em 2011 e a empresa onde eu estava teve que dispensar a grande maioria das pessoas.

Porém, não é por ter sentido e continuar a sentir o peso da austeridade que eu me esqueço ou violo todos os ensinamentos que aprendi com os meus pais, em termos do valor das palavras de honra, coerência, dignidade everticalidade.

Parece que, a exemplo do novo acordo ortográfico haverá também um novo paradigma de valores que eu, sinceramente, desconheço por completo.

 

O Dr. António Costa, que tanto se indignou com os resultados alcançados pelo Dr. António José Seguro, acabaria por ter um resultado ainda pior nas últimas eleições legislativas. 

Também, com a campanha que fez não era de esperar muito mais. As pessoas são incautas, pouco informadas em termos políticos mas têm sensatez e olhos para ver o que se passa à sua volta.

Não fosse assim, a coligação PSD/CDS que esteve quatro anos a impor medidas de austeridade gravíssimas, teria tido um resultado vergonhoso nas últimas eleições. Mas não foi assim. Creio que a maioria dos eleitores percebeu que eles conseguiram tirar Portugal de um abismo quase insolúvel– o que aliás é reconhecido a nível dos maiores líderes europeus – para poder agora começar perspetivar o início de um período de crescimento e recuperação económica, ainda que não tão rápida como se desejaria.

E digam o que disserem e façam as contas que e como quiserem a coligação ganhou inequivocamente as eleições ainda que com maioria relativa.

Eis senão, quando o Dr. António Costa – aquele Senhor indignado com os resultados do seu antecessor – contrariou o que todos julgavam certo, que seria a sua demissão, para iniciar uma cruzada de angariação de apoios, mesmo nos meios mais adversos e com ideais políticos e ideológicos completamente diferentes dos do Partido Socialista.

 

Com coligação PAF andou nitidamente a brincar, qual criança ressabiada que não tinha conseguido seduzir a grande maioria dos portugueses como ele próprio pretendia e estava convencido seria capaz de conseguir. Mas não! Não conseguiu seduzir o número necessário de eleitores para lhe dar a cadeira principal do governo.

Então, despiu-se de todo e qualquer pudor e, sem vergonha começou a “piscar o olho” àqueles que tanto se tinham atirado ao PS, àqueles que defendem a saída da Europa, àqueles que defendem a saída de Portugal da NATO, àqueles que condenam e inviabilizam qualquer privatização e por aí fora

Nada importa! O que importa é conseguir o número necessário para abater os partidos que GANHARAM – digam todos o que disserem – e conseguir ser 1º Ministro!

 

Sinceramente fico constrangida e desencantada com tanta falta de princípios e vergonha na cara!

Não sei falar de política, não sei garantir se as medidas que agora prometem serão ou não exequíveis e, se o forem, como ficará a economia nacional, mas seguramente, tenho vergonha de assistir a estes jogos políticos que servem antes de tudo os interesses pessoais de alguns.

 

E no fim disto tudo, coloca-se uma questão muito simples: ou o governo que acaba de cair nos andou a enganar com tantas medidas restritivas ou, não andou como acredito, e esta “coligação feita à pressa” arranjou uma maneira, qual Midas, de repor num ano tudo aquilo que estava previsto repor em 4 anos. Fantástico! Oxalá seja verdade e oxalá todos nós possamos viver tempos mais harmoniosos e com menos sacrifícios sem que, daqui a algum tempo, estejamos todos de novo com a corda ao pescoço. Veremos!

 

Não poderia acabar este artigo de opinião, sem referir que o anterior governo cometeu vários erros, sendo o maior deles, a falta de sensibilidade social. É que, nestes casos, a austeridade cai em força sobre aqueles que menos podem e têm que “comer e calar” 

Não se julgue que concordo com o que se fez a tantos e tantos trabalhadores que ficaram sem sustento para a família, outros com cortes nos salários que os obrigaram a vender o carro e a casa, reformados que deixaram de ter o suficiente para os medicamentos…enfim, tanto desemprego e tanta miséria.

Claro que não concordei e nem concordo mas teria sido um dever informar os portugueses da real situação que encontraram nas contas públicas quando entraram para o governo. Seguramente teria sido mais fácil para todos compreenderem a real situação e algumas medidas que custaram sangue, suor e lágrimas.

Mas, mesmo consciente desta realidade, não me peçam para concordar agora com este movimento alpinista a que acabamos de assistir e para acreditar que esta coligação cumprirá um mandato de 4 anos com a estabilidade e competência que Portugal e todos os Portugueses merecem.

 

Esperar para ver!

Parafraseando Stephanie Whinter

Prefiro as lagrimas de não ter vencido do que a vergonha de não ter lutado.

 

Filomena Correia

 

 

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