Uns santos muito pouco populares

0

Prometi a mim mesmo que iria parar de escrever sobre aquilo que não gosto. Isso seria embarcar nesta tendência de difundir e promover aquilo que não interessa, gerando consequências inequívocas naqueles que consomem o que nem sequer procuram. 

Desta vez seria impossível não o fazer. Por um questão de justiça e saúde pública. Porque não tolero gente de má índole em qualquer parte. E reparem que não disse má educação com um propósito. Porque sei que há demasiadas pessoas maravilhosas que por este mundo passam sem que possam estudar ou ir ao teatro, que não têm tempo para ler livros nem uma realidade que lhes permita sequer ter o ímpeto de se cultivar. Não é disso que vos falo, mas de uma rudez instintiva e perigosa que requer clausura ou domesticação com urgência. 
Depois de um dia de trabalho em que a correria pautou a diligência, resolvi aceitar o convite de dois queridos amigos para ir a Alfama saborear o prematuro dos nossos Santos Populares. Não havia de ser o cansaço que me iria impedir de petiscar o melhor da gastronomia portuguesa num ambiente familiar e de descontração. O ano passado tínhamos reunido estas mesmas pessoas em semelhante situação e a experiência fora de uma simpatia absolutamente repetível, portanto não haveria desculpa para não o fazer. Às vezes a primeira basta para que seja inesquecível. Ou talvez seja o facto de ser única que assim a tenha tornado. Neste caso, a segunda bastou para esquecer a primeira e não querer de todo repetir. 

Lá fomos nós pelas ruas dentro, em busca do mesmo local aprazível onde no ano passado permanecemos até à uma da madrugada em alegre tertúlia por entre bifanas e sardinhas. Infelizmente, o local já estava a encerrar embora a simpatia se mantivesse e nos tivessem prontamente dito para regressarmos brevemente. É natural que se torne cada vez mais difícil encontrar um lugar disponível nos Santos populares ou em toda e qualquer circunstância típica que provenha da nossa cultura quando a vemos diariamente ser industrializada e travestida com propósitos meramente turísticos, fazendo com que por tal motivo nos parecesse prudente aguardar por uma mesa no sítio mais próximo para que então finalmente pudéssemos jantar. 

Lá nos sentámos numa das barraquinhas da Calçadinha de S.Miguel e começamos a desfiar o rol de pedidos. Lamento não vos poder precisar o nome do sítio porque este nem sequer tal contemplava. Talvez para evitar identificações futuras, não sei. Não fomos originais nos pedidos como podem imaginar. Quisemos sardinha, febra, e chouriço e pimento. Sangria para acompanhar e estava tudo perfeito. Até o Quim Barreiros pode e deve ecoar. São os nossos santos. São o que deles esperamos. O espanto começa quando começamos a ter uma criança de 10 anos, idade confirmada pela própria mais adiante, a colocar-nos os pratos na mesa Até aqui, nada me chocou particularmente. Quando estive na Tailândia passei por diversos negócios familiar onde todos colaboravam com sentido de missão, nunca sequer concebendo um tipo de trato que entre os nossos parece estar erroneamente instituido. A primeira vez que bufei foi quando começo a presenciar a falta de modos com que se dirigiram à criança durante a refeição. A partir desse momento, confesso que tudo ficou de baixo da minha atenção e qualquer falha seria assinalável para o reparo que naturalmente faria quando fosse oportuno. Porque antes de tudo sou um cidadão que não se permite a viver num mundo em que certas realidades são comuns. 

Depois de ver esquecidas algumas das coisas que tinha pedido, de contemplar uma das funcionárias que estavam ao balcão pegarem na carne com as mãos e de perceber que já não estávamos no domínio do à vontade mas do à vontadinha resolvi dizer a um dos elementos da equipa que não creio ser admissível darmos reprimendas com tamanha falta de chá a uma criança em frente a toda a clientela quando a mesma deveria era estar a dormir. Ao que assinalei, na educação que felizmente me caracteriza, fui respondido com um “largue-me da mão.” que me deveria ter claramente esclarecido relativamente ao calibre da malta com que estávamos a lidar. Continuei a comer com a certeza de que não saberia sair dali sem mostrar, dentro dos limites do civismo, a minha indignação, primeiramente relativamente ao facto de ver uma criança ser mal tratada enquanto está ilegalmente a servir, mas também pelo apogeu de falta de noção que ali se traduzia naquilo que chamamos habitualmente atendimento ao público. Para abrilhantar o cenário fomos também advertidos por uma transeunte com a qual nos cruzáramos na casa de banho, inserida numa casa de habitação e para o uso da qual era necessário pagamento, relativamente ao facto de ser incluído na factura apresentada por tal estabelecimento um valor adicional não descriminado que corresponderia a uma remuneração para a comissão de festas

Caros senhores que ousem trabalhar em todo e qualquer estabelecimento que vos exija contacto com a público, convém terem sempre em atenção que os vossos clientes são quem vos paga as contas e vos permitem subsistir, portanto só temos que saber cumprir com o nível mais amador de cordialidade que existe para seremos bem sucedidos no que se chama convivência em sociedade. Por favor e obrigado são o eixo de X. Tudo o resto vem consequentemente. Uma coisa básica, como podem imaginar. 

O erro do ser humano é ser ensinado a laborar com o objectivo de ganhar mais e fazer menos ao invés de proporcionar um serviço de qualidade ao consumidor, que no final de contas, todos somos. 

Terminei a refeição já com muito pouca vontade e portanto em tom de remate resolvi pedir a conta e a factura. Naturalmente à espera que a mesma não fosse passada e ainda expectante relativamente ao valor indiscriminado que efectivamente viria a ser adicionado à nossa despesa. Bem dito bem feito. 7,5€ não indentificados constavam do papel escrito a caneta nos foi entregue à laia de factura. Convém referir que por uma sangria, 15 sardinhas, 3 bifanas, dois cestos de pão, um chouriço, uma morcela e uma salada de pimentos nos foi cobrada a módica quantia de 80€. Questionámos o valor adicionado sem que a nada correspondesse e prontamente dissemos que não o pagaríamos. Já não basta o lucro absurdo face ao serviço prestado, a clara falta de educação e tacto no trato, como ainda somos vitimas da chico-espertice vigente? Não creio. 

Resolvemos alertar as pessoas para o facto de não poderem ter uma menor ao serviço, de não poderem ter um estabelecimento aberto sem emissão de facturas e muito menos adicionarem valores não descriminados a esta espécie de factura que nos fora apresentada. Tudo muito bem. Pagámos o valor, já de si exagerado embora na tendência de exploração turística que atravessamos de forma sedenta e resolvemos, perante tamanha rudez e indiponibilidade na audição das nossas questões, chamar a autoridade para que pudessemos ver regulamentada a forma primitiva com que o cliente é recebido e tratado em tal barraca. O que acontece neste momento é digno dos tempos áureos de Fellini: um jovem a saltar por detrás da grelha com um ferro a insultar-nos e a dizer que nos partia a boca, uma avó a vir levantar o banco onde ainda estávamos sentados, visto que já tínhamos pago, três crianças da mesma família a mandarem-nos bocas em nosso redor enquanto decidimos efectivamente aguardar, o tempo que fosse necessário, para ver registada tal ocorrência. “Ele que cresça para mim…” Dizia uma menina de serva de 12 anos. Eu não cresço com o peito, felizmente faço-o através da minha conduta e, perdoem a presunção, obra feita. 

Pois é assim meus senhores, a mesma família explora uma menor, pega na comida com as mãos antes de a cozinhar, não passa facturas e ainda vos tenta enganar. Isto seria tudo muito giro se tivéssemos sido maravilhosamente atendidos e comido extraordinariamente. Não foi o caso. Fomos insultados, mal servidos, desrespeitados e ameaçados. 

“Há e tal são os santos…” 
Os santos são os enchidos, a música pimba e até as caralhadas. Gosto de tudo e vivo tudo em perfeita conformidade com a circunstância. Agora, a lei e a gentileza no trato deveriam ser transversais a qualquer cenário social e portanto, honrando a minha convicção, aguardei pela polícia, sob o olhar furioso de uma família que a qualquer momento nos poderia agredir e efectivamente consegui registar a ocorrência e identificar as pessoas em questão. Depois entra a parte em que se torna questionável a exequibilidade e celeridade da autoridade que chegou mais de meia hora depois do nosso telefonema, não obstante de nos ter sido dito que o valor pago pela associação de festas já contempla policiamento na área. Não deverá haver muitas pessoas que depois de uma noite estragada ainda queiram dispender do seu tempo no dia seguinte a formalizar queixa na esquadra e posteriormente avançar com despesas processuais para ver o mais elementar da justiça social posto em prática. 

A questão é a seguinte, eu vou mesmo ter essa paciência na esperança de que alguém não tenha que ser agraciado com tamanha cena dramática. Porque é uma vergonha que pessoas desta natureza sequer possam trabalhar com atendimento ao público, num cumprimento que fica muito aquém do que possa ser legalmente exigido para sequer se ter um negócio e ainda transparecendo o ímpeto claro de vigarizar em vez de servir. Porque isto vai muito além do aceitável. E porque no fim de contas paguei um valor absurdo para ser tratado como os porcos de estrebaria que esta malta deve matar nos fins de semana em família enquanto se manda foder mutuamente. 

Valeram-nos as simpáticas pessoas de um espaço ao lado que gentilmente nos serviram um maravilhoso arroz doce enquanto aguardávamos pelos agentes destacados e que nos confirmaram que aquela não era de todo boa gente. Não há cá valores nenhuns para comissões de festas. E felizmente quem é de dentro também lhes conhece a raça. Acreditem, não é preciso muita perspicácia. 

Vamos manter a tradição, a honra mas também a justiça e a educação que nos deve caracterizar para que tenhamos o orgulho de nos definir como animais racionais. Porque os meus cães meus amigos, são uns senhores ao pé de vós e eu não paguei bilhete para ir ao Texas. 

DEIXE UMA RESPOSTA