Travestindo os nervos – Gala II

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Como alguns devem saber, a estreia do programa foi antecipada para surpresa de todos, sendo que até uma semana antes de começar todos acreditámos que apenas em Janeiro poderíamos visualizar as nossas venturas recreativas.

Tal facto levou a que tivéssemos que gravar duas galas por semana durante uma quinzena.

Desta feita combinei-me com a queridíssima e talentosa Maria Sampaio para me abrigar na sua boleia até aos estúdios pelas 8:30 da matina.

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Confesso que nunca na vida invejei uma mulher a ponto de me querer colocar na sua pele. Admiro-lhes o trabalho imenso que requer para se enquadrarem no que os cânones contemporâneos consideram ser o seu melhor. Ele é saltos altos, ele é pestanas a colar, ele é corpetes apertados e por fim uma sensual e castradora rede a embrulhar-me a cabeça. Só podia correr bem.

Durante a manhã fomos entrevistados pelo Manuel Luís, com quem é sempre engraçado encontrar-me por me lembrar que foi ao lado dele e da Sónia Araújo que me estreei em televisão aos 10 anos, na versão clássica da praça da alegria.

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Macacão Ricardo Andrez
Sapatos Eureka Shoes

O almoço foram favas e enchidos e uma mini para contrastar com as meninas que cuidadosamente optaram por batata doce, pescada e vegetais. Eu seria sempre uma gorda.

Quando experimentei a saia na sala de figurinos senti as pernas presas e achei de uma falta de dignidade tremenda uma roqueira não poder abrir convenientemente a perna em actuação. Umas leggings pretas evitaram o pior: rapar as pernas.

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Em plena segunda gala já tive que me livrar dos pelos dos braços, da barba, dos meus estimados pelos do peito e até das axilas. Eu sou um homem que convive muito bem com o seu pelo e confesso que não é uma situação adorável.

Durante o dia recebemos também a minha mais que querida Marta Andrino que viria desta feita actuar pela primeira vez. Conheço a Marta há uns anos e não me canso de lhe dizer que a maternidade lhe fez muito bem. Está linda, luminosa e com a doçura discreta que sempre lhe reconheci. A Maria andava pelos corredores com os phones a ensaiar a música vezes sem conta. Há que confessar que ela é provavelmente a concorrente que mais trabalha para que tudo lhe corra bem. Repete e repete e repete e nota-se nela o fogo de quem se recusa a fazer menos do que eximiamente. Já vos disse que trabalhar muito é meio caminho andado?

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Durante o dia eu parecia uma puta de beira de estrada tal era a ambiguidade do meu aspecto. De tronco nu, meio maquilhado, com a legging e a bota calçada, a fumar cigarros a cada intervalo para queimar o tempo morto.

Nesse dia resolvi oferecer o meu disco a todos os júris e concorrentes. É para mim muito lisonjeiro ter a oportunidade de endereçar a minha arte a pessoas tão admiráveis e talentosas. É um privilégio abranger este público, especificamente, com quem partilho o amor à arte e esta aventura maluca.

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A Marta surpreendeu todos com uma actuação segura e uma voz possante, protagonizando um momento familiar que me emocionou e fez ter saudades da minha mãe. Sempre tive uma afeição estranha e especial pela Carla Andrino desde que assisti a uma grande entrevista sua na televisão onde ela se revelava como profissional e Mãe. Na qual ela confessara que fazia rir facilmente mas que se ria pouco. Revi-me muito nestas palavras. Percebi-a e senti-as.

Fui novamente o segundo a actuar e no final da minha actuação não consegui conter, qual Marisa Liz, as lágrimas. A pressão que me faço é grande e quando o túnel acaba a vontade de desmaiar na luz é intensa. Passam-me mil coisas pela cabeça cada vez que o júri me endereça quaisquer palavras e nesses momentos penso na resiliência que a minha vida e o meu amor à arte me tem exigido.

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Como convidada tivemos a jovem actriz Barbara Branco que, aos 16 anos, deu um grande baile a todos com a sua Jessie J, não obstante dos nervos que lhe caracterizavam o discurso durante a tarde. Felizmente não é nossa adversária, foi o comentário geral, em tom de admiração.

No final, por obra e graça dos meus colegas, acabei por me sagrar vencedor da segunda gala. Na realidade, achei novamente que fora melhor no ensaio e tenho que vos confessar que, embora não tenha seios, a minha grande preocupação durante a minha actuação foi não ficar com as Marisinhas de fora.

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Tentei novamente apanhar os meus comparsas mas o Sérgio e o David começaram a desmontar-se que fosse possível, não fazendo parte deste segundo Livin’ la vida loca, mas voltando para a semana muito mais esbeltos e frondosos.

Cheguei a casa estafado e feliz. Sabia que no dia a seguir haveria mais. Na realidade achei que a Simone da Maria tinha merecido o prémio esta noite, mas a justiça também sabe ser subjectiva e fugir-nos ao controle.

À vinda para casa ainda fomos interpelados numa operação stop, como se a cama fosse um bombo em constante fuga. Com graciosidade a Maria contornou a situação e soube tirar-nos dali em menos de nada.

Pensei, ainda bem que não tenho carta. Bem ditas pombinhas.

1 COMENTÁRIO

  1. Tens que me ensinar a escrever assim com tanto sentimento… Não me canso de ler cada texto teu… Estava aqui a ler descansadita e a fumar o meu cigarro e só pensava, que cabeça é esta? Adorava passar um dia por entre os teus pensamentos… Já n bastava teres uma voz de louvar aos deuses ainda tens um jeito tão autêntico com as palavras… Pra não falar de todos os outros talentos que tens apresentado e outros tantos que devem estar escondidos…
    Um artista demasiado completo para ser real…
    Se te perguntarem o porquê de tantas reticências, são palavras que não encontro para poder completar as frases com a dimenção que merecem.
    Adoro-te desde o princípio, e ainda acho que vou morrer adorando cada passo teu.
    Muito obrigada pela tua grandeza!
    Muitas vezes fazes-me sonhar.
    Um beijo bem grande, um abraço mais forte ainda é ainda, um desejo de muito sucesso ou ainda mais do que já tens, mas este para o resto da tua vida!
    És grande!!!

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