Sobre a mudança

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Já ninguém se lembra dos livros dos cinco e dos sete e não é seguro comer fora no Verão. As intoxicações alimentares e da alma são cada vez mais frequentes e além de saldarmos os sonhos hipotecamos o sentido. O amor virtualizou-se e a direcção deixou de ser factor obrigatório. Os tempos são agridoces e as rotinas um fantasma. Há a ânsia de nos libertarmos de toda e qualquer amarra para chegarmos ao cume de uma montanha isolada onde concluiremos não saber o porquê de tamanha valorização dessa enorme sensação de desapego e falta de compromisso. Não sou o que tenho mas sem realmente ter alguma coisa também não me importará quem serei da mesma forma. Ser feliz é tão complicado que as tentativas sucedâneas nos levam a um ponto de erosão absolutamente aterrador nos píncaros do nosso existencialismo. Parar não é visto como um dom e nós subvertemos contextos e conceitos em prol de uma visão mais confortável dos paradigmas. Não sei se perceberão o que tento dizer porque até para mim o cenário se afigura cada vez mais indecifrável. Perco-me por entre o ócio e a contemplação. As publicações distorcem a realidade e a realidade deixa de o ser a uma velocidade que não sei acompanhar. As embalagens roubam-nos a exigência perante o conteúdo e eu bebo para falar mais e por vezes fico apenas mudo. Há quem não saiba lidar com despedidas e há quem nem se importe com a importância de um adeus. Há quem deixe a vida fora do descanso porque os telefones e as histórias se tornaram portáteis. Há quem viva a dois passos dos meus lábios e não lhes consiga roubar um beijo que eu ofereceria de bom grado numa utopia em que o crime não compensasse. Há trilhos que se reduzem numa troca acesa de palavras e as horas de sono que não dormi imploram-me que acredite num amanhã mais suportável. Vejo o envelhecimento dos que amo a levar-lhes o vigor e a esperança sem grande pudor. Agarro-me ao que já passou com uma força que sei não chegar para reverter os efeitos secundários do tempo. Gostava de me saber capaz de encarar o triplo do que nas minhas costas fora despejado com a rebeldia da adolescência, a candura da infância e a coragem de quando amei. Os cd's já não têm onde girar e as senhoras podem ofender-se se lhes abrirmos a porta do carro. Cada um que seja como quiser. O que nos difere dos restantes animais é a tentativa crónica de reproduzir sensações que poderão não ser repetíveis. E a saudade que vem do medo de não sabermos se haverá força e propósito para viver melhor. Quereremos realmente ser melhores num sítio onde achamos tudo estar pior? Quis tanto ser um baluarte da vanguarda e de repente parece que deixei de me sentir em casa nesta modernice tamanha. Já não sei traduzir ou deslindar. Acho que partimos de tudo o que conhecemos instigados pela ideia de passarmos a perna ao tédio que se coloca a par de cada certeza apenas para que um dia voltemos, cansados e de braços abertos com a certeza de que as primeiras coisas que conhecemos e nos fizeram sorrir são as únicas que precisamos para o continuar a fazer. Neste momento queria deitar-me na palma da mão de alguém que lá me fechasse e embalasse para um sono profundo que só terminasse quando acordássemos a rebolar todos nus nas línguas caladas um do outro. Que a música deixasse de ter palavras e os sons dissessem tudo. Que os livros ardessem e os corações fossem leitura obrigatória. Que as sailor moon tornassem a castigar em nome da lua e os jornais nos educassem. Que as insónias sejam dissipadas pela calma de quem não teme perceber demais. Que o crescimento do meu cabelo me permita lembrar de como era ser dono do mundo quando nem percebia a importância que isso podia ter. Que ser dono de nada me traga a liberdade suficiente, e não em demasia, para sentir que pertenço. A qualquer coisa. A ti. E aos dias que tão custosamente já vivi e me arrancaram tantas gargalhadas e me deram tão pouco amor. Talvez eu não o saiba receber. Talvez eu queira demais. Talvez o problema seja eu. Mas ser eu nunca podia ser um problema. Não é opcional, certo?

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8 COMENTÁRIOS

  1. Absolutamente fantástico! Ainda hoje escrevi sobre algo semelhante. Faltam-nos cartas de amor, palavras escritas e espaços deixados em branco para se puder ler aquilo que não queremos escrever mas que tanto queremos dizer. Metamorfoseamos-nos nas tecnologias e deixamos de metamorfosear nos corações. Deixámos de nos apaixonar por interiores e só a imagem conta. Deixámos de viver para irmos vivendo!

    Parabéns pelo excelente texto que nos deixa a pensar…

  2. A palma da mao esta aberta
    So com a tua acerta
    So com a tua encaixa e so a tua quer
    Fui feita para te amar
    Nunca te esperei encontrar
    Continuarei a te esperar
    Es meu sonhar
    Tenho de trabalhar
    Dinheiro juntar
    Lutar pelos meus objectivos
    Sei que os teus sao parecidos
    No acaso nos emcontramos
    Ja nos beijamos
    Ouvi teu cantar
    Teu sentir me fez te amar
    Um dia vamos nos encontrar
    E o futuro vamos cruzar
    Es o meu mundo
    Meu amor e sentimento profundo
    Para o resto da minha vida
    Serás minha alegria
    Amo-te
    Todo o segunfo e estação do ano

    Para ti amigo e amor da minha vida. ZB

  3. Simplesmente, fiquei sem palavras…
    Nesse texto, fizeste com que eu me encontrasse em cada letra…em cada frase… em cada palavra!
    Tão assim… tão verdade nos nossos dias…
    Obrigado por essas palavras sábias!!!
    Que acima de tudo, sejas muito feliz Darko!!!

  4. I never have scared of love, with you on março when clock never stop agayn, foi Deus que nos unio, and this strangers, nunca mais vamos acordar neste sonho until the morning comes, fomos, somos e seremos, assim quero eu, quererás tu?

  5. Meditação
    E mim ainda és atmosfera
    olho-te e vejo um monumento
    penso em ti a todo o momento
    és a minha cor espiritual
    ainda és par ideal
    encheste meu mundo de palavras
    passaste a ser o refrão da minha afirmação
    pego no lapis e desenho a nossa fantasia
    escrevo nossa magia
    tornas a minha noite mistica
    mas eu movo-me silenciosamente na brisa
    onde tu és semente do meu deserto
    és em mim pecado
    colção da minha meditação
    és o mundo na palma da minha mão
    amor transcendente
    amo-te incondicionalmente
    passeias nos meus sonhos
    és meu tesouro
    com coração de ouro
    a melhor surpresa
    que entrou no meu templo
    oiço-te sem parar
    olho-te e sonho acordada
    fizeste bonito meu viver
    e não te consigo esquecer
    numa hora do acaso nos encontramos
    cantamos e nunca nos separamos
    hoje és presente
    mas do meu dia estás ausente
    não quero mais chorar
    quero te encontrar e amar
    mas não dá para adiar
    começo a pensar em acordar
    amarte-ei para sempre
    quero que sejas presente
    para de pensar
    para o futuro adiar
    vem comigo te encontrar
    enquanto a porta está aberta de par em par

    Beijinho Z. B.

  6. Adorei o texto mas ‘as Sailor Moon’ não… Sailor Moon só havia uma as outras eram Sailors de outros planetas ou asteróides 🙁 Lamento se é muito preciosista mas esse anime diz-me tanto. Ou é “a Sailor Moon tornasse a castigar” ou “as Sailors tornassem a castigar” ou ainda as “Guerreiras Navegantes tornassem a castigar”. Ainda assim, belo texto, carregado de sentimento e bela menção a um anime maravilhoso *.* um abraço

  7. Mais uma vez vim ler este, texto extraordinário. Nunca deixe de ser quem tu és, quem gosta de ti tem de te respeitar e aceitar a pessoa linda que és, senão não vale a pena, tem de haver respeito e compreensão, sempre. A mão estará sempre aberta dessas pessoas que gostam de ti, para te amparar, apoiar e te amar como mereces. Beijinho grande. Tudo de bom para ti pois bem mereces

    Cristina Vieira
    p/ Zé Bicho

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