Sarah

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Uma mulher extraordinária que nos ajuda a perceber de uma forma tangível uma realidade que é distante a tantos, mas, ao mesmo tempo tão simples. Uma conversa leve, fácil, e, ao mesmo tempo tão profunda que encerra em si tantas verdades itinerantes e sem género. Moldadora de medos, sem pudores ou constrangimentos, faz-nos uma visita guiada ao seu âmago, onde nos ensina através da sua experiência que, a tolerância e o amor ao próximo são o resultado mais sublime da educação.

 
1. Quem é a Sarah?
 

A Sarah é uma pessoa, uma ativista dos direitos humanos, uma pintora. A Sarah é música, multi-instrumentista. Cresceu em São Paulo, teve uma juventude complicada porque perdeu os pais muito cedo, lutou muito para conseguir sobreviver. A Sarah passou por momentos de muita solidão, de medo, de dor e sofrimento, mas nunca se entregou e, sempre teve esperança de que um dia…. um dia seria livre. Sim, livre, pois a Sarah foi durante muitos e muitos anos uma prisioneira de uma prisão sem gradessem muros. Uma prisão interior, que gerava uma incapacidade de sentir o sabor real da vida. Sentia-me sempre como se representasse uma personagem. Essa personagem tinha também um nome, um nome de rapaz e um corpo de rapaz, e todas as pessoas o tratavam como tal. E eu, ali vivi e habitei no corpo e na vida deste rapaz durante longos trinta e três anos. Até que um dia, ele já cansado de ter tanto medo e sentindo culpa por me ter a mim dentro de si como prisioneira, deixou-me ser livre, abrindo as portas da prisão interior deste meu ser.

A partir daí, pude finalmente ser o que me permite responder com muita naturalidade à questão “Quem é a Sarah?”. A Sarah é uma pessoa livre, feliz, lutadora, conscienteativista, descomplexada e acima de tudo,amante da vida, das artes, da natureza e das pessoas!

 
2. Quando nasceu a Sarah?

 

Bem, a Sarah não surgiu pura e simplesmente, bem como todas as outras pessoas!

Eu passei por uma série de processos e experiências na minha vida das quais acredito serem em grande parte a base da minha própria construção identitária, embora existam indícios de que, muitas das nossas aptidões e afinidades possam ser inatas. Sendo mais concisa em relação à pergunta, penso e sinto que a Sarah sempre esteve aqui desde que eu me lembro de existir neste mundo. Talvez não desta forma como eu hoje sou mas na forma de uma permanente questão “Quem sou eu?”.

É esta questão que se torna o catalisador de toda uma busca por outra identidade, para além dos moldes que a sociedade nos impõe desde a mais tenra infância.

 
 
3. Qual é o papel da música e da arte na tua vida? É uma válvula de escape? Uma materialização de outras formas que não se definem por si só?

 

 

Sim, é fundamental! É através da arte que consigo expressar os meus sentimentos mais profundos e transmitir esta energia com uma comunicação mais subtil e leve. A música e a pintura deixam-me leve, permitem-me ter momentos de partilha com outras pessoas. Permitem-me ter um canal para chegar até elas e desconstruir estigmas. Mas o mais importante é permitir-me desenvolver atividades onde posso ajudar pessoas a trabalharem os seus medos, as suas inseguranças, a sua autoconfiança e, criando comunidade entre elas, um elo agregador.

 
4. Se tivesses de escolher uma música e um quadro para retratar a tua vida qual seria a tua opção mais expressiva?
 

Sou perdidamente apaixonada por Boy George, David Bowie e Garbage!

Mas há uma canção da banda brasileira Legião Urbana chamada “Meninos e meninas” que é realmente a musica com a qual melhor me identifico. 

Se fosse escolher um quadro escolheria um dos meus intitulado “ A cara das cores” pintado recentemente no culminar de uma série de experiências maravilhosamente inusitadas que têm tido lugar na minha vida desde que me libertei. É de facto um auto-retrato que tenta transmitir na forma uma imagem de todo um sentimento de liberdade, satisfação e identificação comigo mesma com o mundo e as pessoas à minha volta.

 
5. Qual a viagem mais importante?

 

A vida em si tem sido uma grande viagem. Já passei por muitos países em diversos contextos. Posso citar as mais marcantes, como Israel, ou New York, por terem sido experiências opostamente intensas.

A minha viagem a Israel foi com o escopo de realizar um processo de assimilação baseada numa lei chamada “Lei do regresso” que confere a qualquer descendente direto de uma família judaica o direito à nacionalidade israelita, sendo eu descendente de uma família de origem judaica. Assim sendo, propus-me a realizar tal processo que consistia em passar por um duro período de serviço militar, o que na altura em franca crise de auto negação e conflito interior, achei ser uma forma de tentar um caminho onde eu me pudesse identificar e sentir pertença uma vez que ao longo da vida sempre me senti deslocada e incapaz de me sentir integrada seja no que fosse. Talvez por este motivo tenha sentido a necessidade de experimentar e ir a fundo em tudo o que me provocasse algum fascínio ou despertasse algum interesse, o que fez com que eu adquirisse ao longo da vida muitos conhecimentos acerca das mais variadas disciplinas da vida humana.

Mas respondendo em concreto à pergunta, sem dúvida Portugal foi o país a que eu, Sarah, chamei de casa e, que mora no meu coração. Penso que esteja eu onde estiver e se de repente pensar em voltar para casa, é em Portugal que estarei a pensar instantaneamente.

 

6. Qual o catalisador que te motivou a ser parte integrante de tantas associações de cariz voluntário?
 

Desde muito jovem sempre fui uma pessoa reivindicativa, pugnava pelo ativismo na faculdade, fui membro do Centro Académico da Fundação Escola de Sociologia e Politica do estado de São Paulo. Fui Punk militante pro feminista, enfim, sempre marquei presença em várias vertentes, sempre trabalho direcionado para os direitos das pessoas. Portanto quando eu finalmente me vi dentro de um grupo de pessoas que têm os seus direitos cerceados e reduzidos com base num mero preconceito altamente demagógico e hipócrita, naturalmente me encaixei numa organização. Daqui recebi muito apoio na fase inicial da minha transição e, a partir daí, comecei este caminho como ativista dos direitos das pessoas transgenero e transexuais.

Fui coordenadora do bar e dos voluntários do centro LGBT e da associação ILGA Portugal onde desenvolvia um trabalho de acolhimento e encaminhamento de pessoas que vinham à procura de informações e recursos para o apoio a transição. Encaminhamento a nível médico, social e jurídico e até em alguns caso apoio na gestão de conflitos familiares através de conversas e de informação aos pais das pessoas que muitas vezes dependiam dos pais para a sua sobrevivência. Posteriormente fui convidada a coordenar um grupo de interesse da ILGA exclusivamente direcionado para as questões TRANS* como são catalogadas. Entretanto o excessivo institucionalismo dos processos fizeram com que me afastasse e, passei a dedicar-me a um projeto independente chamado “Movimento Transaction” que vem a ser exatamente uma ponte entre as pessoas TRANS* espalhadas pelos diversos coletivos e, organizações existentes que têm cada uma o seu modus operandis. Umas mais interventivas outras, mais institucionais e moderadas, porém todas com a responsabilidade de dar o devido apoio a as pessoas que a elas recorram. Dentro deste trabalho, tenho trabalhado através das redes sociais e do aproveitamento do espaço físico da associação onde trabalho, Bus Paragem Cultural, onde tento promover encontros, palestras e atividades que promovem o diálogo e a troca de informação entre estres grupos..

 
7. Como é viver numa sociedade binária onde ainda são impostos paradigmas estanques de sexualidade?
 

 

 

 

É sem dúvida uma frustração e uma violência muito grande quando nos apercebemos que somos pessoas limitadas por estigmas e conceitos que toldam a nossa própria identidade e a nossa orientação sexual. Embora não sendo estanque, é, infelizmente motivo de grande pressão social no sentido de uma moldagem das nossas personalidades e dos nossos comportamentos sociais e até íntimos. A única forma sincera de lidar com estas pressões é através de uma resistência natural e sem esforços. Tentar mostrar com as nossas próprias atitudes que, na verdade, o género não é estanque e, o binarismo enquanto conceito humano não é aplicável de forma alguma. Somos todos diferentes e podemo-nos manifestar de uma forma mais ou menos feminina conforme o que sentimos em determinados momentos da nossas vidas. Porém, ao invés deste cenário, a sociedade tenta ditar um padrão de comportamento baseado em estereótipos de beleza e de riqueza ou mesmo de estatuto social. Tudo isto gera um efeito social semelhante ao de uma centrífugadora que nos esmaga contra as extremidades das suas paredes através de uma uniformidade comportamental. Nos casos de pessoas como eu, que fazemos esta passagem para o outro extremo do eixo desta centrífugadora, ao cruzar este eixo somos empurrados imediatamente para o outro extremo. Tudo isto sem a possibilidade sequer de tentar encontrar uma zona de conforto dentro do intervalo entre o eixo e a extremidade de uma escala que acaba omitida e não aceite pela máquina da engenharia social.

 

8. Quais são os principais obstáculos societários que um transexual enfrenta em Portugal?
 

Falando a nível da realidade do nosso país, ainda há muito a ser feito em termos da própria legislação que requer da pessoa transexual um relatório médico em que seja atribuído à pessoa um estatuto de portadora de doença mental, qua se designa “disforia de género”. Somente através deste relatório se pode aceder da direito a mudança de género e nome social no bilhete de identidade.

Para além desta situação, esta operação tem um custo ainda muito elevado para quem precisa mudar de nome e género nos documentos para se sentir mais confortável ao se apresentar perante órgãos e instituições cujo contacto com as quais exijam a apresentação de tais documentos. A nível laboral, muito dificilmente uma pessoa transexual conseguiria ser absorvida pelo mercado de trabalho ainda que tenha qualificações para tal. Existe um grande preconceito embutido nos critérios de selecção de candidatos a emprego. Este quadro não atinge só as pessoas transexuais mas também todas as pessoas que de alguma forma não se encaixem nos moldes e requisitos ditados pelo mainstream dos estereótipos de beleza e competência exigidos pelas instituições.

Esta questão está diretamente ligada as questões de empowerment social e abrange todos independentemente da sua cor, classe, sexo, expressão de género, orientação social. Estamos na busca não só de trabalho mas também na busca por dignidade, aceitação, respeito e dignidade.

É como se os nossos direitos enquanto pessoas que deveriam ser plenamente garantidos, estivessem na verdade condicionados à nossa aparência, à nossa origem e a nossa forma física. Daí a dificuldade encontrada por qualquer pessoa quando contacta com alguém como eu que provoca dúvida e confusão nas pessoas. Isto causa uma enorme inquietação e um sentimento de grande insegurança. O que se pode revelar de muitas formas, desde a repulsa e a negação de qualquer contacto verbal, físico ou mesmo visual até o outro extremo que se manifesta com violência e hostilidade. Contudo, são tudo reflexos de um sentimento de grande insegurança e medo do questionamento que a minha simples existência lhes gera interiormente.

 

9. Quem ficou na vida da Sara?
 

 

 

 

Ficou quem quis ficar. Eu, a Sarah não baniu ninguém do seu universo, mas de facto, dos amigos e das relações do passado 99.999999 % do que era a vida passada e as pessoas que nela pertenciam deixaram de estar presentes, afastando-se constrangidas e inseguras. Ou então talvez tivesse sido medo ou vergonha, não sei… mas de facto precisei de criar toda a minha rede de contactos e circulo social do zero. Salvo algumas boas excepções daquelas pessoas especiais para mim que me acolheram e me aceitaram e apoiaram nesta nova fase da vida. Pessoas bonitas. Hoje sinto que sou uma privilegiada, pois na minha vida só aparecem pessoas incrivelmente humanas e maravilhosas! Foi uma transição difícil no começo mas que hoje, já com algum distanciamento vejo que foi mesmo algo como uma grande revolução em minha vida mas que trouxe frutos magníficos e pessoas espetaculares.

 

Faria tudo outra vez quantas vezes fosse preciso!

 

10. Como foi a adaptação a Portugal? O preconceito também emigrou para cá?

 

 

 

O preconceito existe em toda parte e apresenta-se sem cerimónias, de formas mais ou menos duras consoante as realidades e contextos sociais. Eu, pessoalmente, enquanto vivi no Brasil nunca senti, apesar de muitas vezes presenciar no Brasil e em outros países por onde passei, o preconceito por ser diferente. Somente aqui, em Portugaltive essa experiencia de forma concreta. Ainda assim, sei dizer que embora o preconceito exista, não de forma tão agressiva e violenta como em outras realidades mas de uma forma não declarada, porem visível para quem tem de ir à procura de trabalho ou em busca de oportunidades e que, não se enquadra nos perfis exigidos pela normatividade social.

 

11. A génese da violência e intolerância é a insegurança?
 

Na minha opinião, trata-se justamente das fragilidades de cada individuo e da sociedade como um todo. A grande insegurança e falta de auto-afirmação, e mais do que isso, esta pressão exercida contra o individuo no sentido de se enquadrar nos moldes sociais obriga muitas vezes a uma negação da sua própria natureza, estímulos e sentimentos que são reprimidos por medo ou insegurança. Este medo pode-se manifestar de muitas formas cada vez que uma pessoa se sente ameaçada na sua posição no encadeamento social ou, se vê sem uma resposta a algum estímulo externo. Esta pessoa pode muitas vezes reagir de formas variadas , entre as quais ,as atitudes agressivas que podem ir desde um simples insulto ate a consumação de uma agressão mais séria. Mas eu quase que afirmo que, na base de grande parte das agressões está um medo incutido e uma forte insegurança por parte do agressor em relação a si próprio e não com relação propriamente ao alvo ou a vitima da agressão.

 

12. É importante definir? 
 

 

 

 

É importante definir sim, mas sempre com o objetivo de desconstruir e de transformar em algo melhor aquilo que de alguma forma agride e prejudica o nosso desenvolvimento enquanto humanidade! Não há mais lugar para antigos preconceitos, e toda esta estrutura de empowerment social baseados em ideologias retrogradas e perniciosas ao pleno exercício da nossa cidadania, e mais do que isto, das nossas experiências e desenvolvimento enquanto seres humanos.

 

13. Quais os princípios que deveriam balizar a sociedade?
 

Eu quando penso em princípios só consigo encaixar um chamado equidade. Vejam bem se não é de igualdade que falo.

Pois igualdade é um conceito que visa promover que toda as pessoas tenham as mesmas ferramentas não impondo a necessidade real de cada uma delas, enquanto a equidade visa promover uma gestão dos recursos de modos a suprir as reais necessidades de cada individuo. Apenas para dar um exemplo, imagine que eu era governante de um determinado povoamento e resolvia dar um par de sapatos a cada morador sem ter em conta que algumas das pessoas provavelmente ou não precisam, pois já têm sapatos, oupor não terem pés. Nestes casos teríamos uma igualdade injusta que não contempla as reais necessidades e capacidades de cada individuo. Este geralmente é o caminho dos governantes populistas, que estão mais interessados na repercussão dos seus atos enquanto meio de propaganda e não com um compromisso sério de ajudar as pessoas. O conceito de equidade tem em consideração as limitações e qualidades de cada um de nós e o seu desenvolvimento pessoal e comunitário.

 

14. Tendo em conta o teu percurso de vida,  tudo poderia resvalar para um caminho marcado com passos de amargura, o que te motivou para caminhar com passos de fé?
 

Eu vejo a vida como uma aprendizagem, e sabendo eu o que é a dor, a solidão e a amargura, sinto que devo utilizar esta aprendizagem para ajudar pessoas e tornar melhor a realidade dos que me rodeiam. Fico feliz em saber que, mesmo sendo eu uma pessoa que tem um poder de encaixe social reduzido pela minha condição de pessoa não normativa, sempre tento aplicar-me muito mais do que muitas outras pessoas. Sinto que consigo manter-me e, ter força e dinamismo suficientes para contrariar as expectativas e a regra.

 

15. Itinerante ou estanque? Porquê? 
 

 

 

 

Itinerante como a própria existência! Nada estanque, estamos em constante mudança e em diferentes momentos da vida podemos ter a necessidade ou vontade de nos expressarmos de diferentes formas. Assim, devemos ter uma consciência aberta e não estanque, estamos sempre a absorver novas visões do mundo e experienciando novas alternativas que nos vão enriquecendo enquanto pessoas. Não como máquinas, formatadas que somente seguem um padrão sem estarem abertas à aprendizagem, e a outras formas de consciência e outras vivências.

 

16. Qual a imagem que guardas com mais felicidade?
 

São muitas as passagens que me marcaram, mas destaco, o nascimento dos meus dois filhos e a minha libertação da velha identidade que era na verdade uma merapersonagem social que não correspondia ao meu real desejo e à minha natureza. 

São dois pontos realmente marcantes.

 
17. Existe saudade de um futuro?

 

Não é bem saudade, pois o futuro esta aí no próximo segundo. Então, não sinto sempre uma grande expectativa de um futuro melhor, mas de mais harmonia e paz. De uma sociedade mias responsável e humana. Não chamaria saudade, e sim uma grande esperança de um futuro melhor para todos.

 

18. Somos do tamanho dos nossos sonhos? Qual é esse sonho?
 

Somos do tamanho da nossa determinação. Somos do tamanho da nossa vontade de viver, de ser e de existir. Somos tão grandes quanto a crença em nós, na humanidade e no amanhã. Eu não diria fé e sim amor, por nós próprios epelos nossos semelhantes. Somos do tamanho da nossa bondade, da nossa capacidade de amar e viver este amor pela vida de forma intensa e presente.

Acho que na verdade os nossos sonhos são do tamanho dos nossos corações, este é o grande sonho para mim, sentir-me uma pessoa que sabe amar no sentido mais amplo da palavra!

 

 

 

 

Obrigada Sarah.

 

Texto: Regina Azevedo Pinto

Produçao: L’enfer c’est les autres

Fotografia: José Ferreira

 

Agradecimentos: Triângulo das Bermudas, 39a Concept Store,Bus – Paragem Cultural, Maurício Macedo

 

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