Retórica emocional

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A ilusão por detrás do que queremos tantas vezes denominar de apresso, estima ou amor reside no simples facto de jamais termos a capacidade de realmente apreciar, respeitar e aceitar os outros por inteiro. Ou simplesmente porque ter vontade própria irá sempre e inevitavelmente colidir com os desejos e aspirações dos nossos interlocutores. Nunca acreditem em quem assente a tudo e a todos os que se lhe cruzem. Tal postura invariavelmente contempla uma grande dose de cinismo, método e estratégia. É sabido que tais derivados do cognitivo pouco ou nada têm que ver com o coração. Esse órgão imbecil que nos impele a estruturar toda uma edificação dos sentimentos ilusórios que primeiramente mencionei. As pessoas gostam daquilo que é positivamente afectado nas suas características pelas nossas. Somos projecções do que elas gostariam de ser, do que elas querem acreditar que nós somos e do que lhes seria aprazível que fossemos. "Gosto muito de ti, mas…" Gostavas de mim se eu fosse menos temperamental e impulsivo, se não fosse tão caseiro, se não fumasse, se fosse mais rotineiro e disciplinado, se fosse ao ginásio, se gostasse mais de ir à praia e de me levantar mais cedo, se fosse ter contigo onde estás porque te dá mais jeito e se não te mandasse mensagens quando a agenda não te permite ter paciência para responder porque pode ser uma chatice… Here's the big news: isso não é gostar de mim. Não pode haver "mas" nos gostares entre seres distintos. O "mas" resulta do desgosto consequente do monstro da expectativa, da falácia da aceitação quando nos permitimos a querer retocar constantemente o que não está errado. É engraçado como nos sentimos atraídos por quem nos desafia mas gostamos muito mais de quem nos serve porque é mais seguro e cómodo. Quase como entre pais e filhos. Há sempre uma certa mística por detrás de queremos conquistar a aprovação de um pai severo mas gostarmos de uma mãe que nos faz a cama e apanha a roupa do chão. Ambos são profundamente importantes. Ambos nos acrescem e despertam. Ambos nos magoam e nos moldam para a vida, mesmo quando não o tencionam fazer. E é por ser tão óbvia a cicatriz deste modus operandi que acredito ser impraticável confundirmos o amor com domínio ou manipulação na vida adulta. Quem gostar tem que gostar em pleno e talvez isso possa ser utópico. Não vamos concordar sempre. E talvez nos desrespeitemos de alguma forma porque as realidades e crenças serão sempre diferentes apesar das semelhanças que possam existir. Nunca acreditei em boas nem más pessoas. Acredito em sintonias e compatibilidades. Acredito também no seu término. É tão feio quando nos apercebemos que nos apaixonamos sim pela forma como nos tratam. Todos gostamos de ser bem tratados. Todos sabemos o trabalho que isso dá. Todos sabemos que tantas vezes não é o que nos apetece e que um dia mais tarde nos podemos arrepender de o fazer. O amor e a amizade não são nem podem ser um frete. Mas vivem muitas vezes de fretes e essa é a mais pura das verdades. Quase que medimos a nossa dose de amor por alguém pelo que estamos dispostos a sacrificar por essa pessoa. Isto é muito católico. Esta coisa de atribuir credibilidade ao sacrifício. E quem não os souber fazer será sempre apelidado de irascível, intolerante, narcisista e tudo o que se lhe possa imputar. Eu gosto de saber que a verdade é apaixonante. E que se tens defeitos e te apetece estar de trombas sem que o escamoteies pelo menos me concedes a tua verdade. É mais fácil ser-se feliz com realismo. Se isso tem uma grande dose de negativismo implícito? Depende como encaramos ou queremos encarar a coisa. Positivo é sabermos o que queremos e o que nos importa sem que os outros nos façam esquecer dessas directrizes, independentemente de quem sejam. De quem nos sejam. Porque cada um de nós terá sempre defeitos aos olhos dos que não lhe são semelhantes ou não se identificam consigo. Isso também nunca definirá o nosso valor numa escala de comparação palpável. A comparação é uma quimera que deita por terra o que nos torna únicos e indispensáveis: a identidade. Por isso, em última instância, que a nossa guerra se prenda com sabermos perdoar e amar quem somos e o que isso acarrete. O que faz de nós quem somos. O que nos pode tornar apaixonantes aos olhos de quem ama a sério. Ou pelo menos, próximo daquilo que queremos acreditar que isso seja.

2 COMENTÁRIOS

  1. Quando gosto e por inteiro
    O ano inteiro
    Nao gosto de ninguem mudar
    E assim meu amar
    E saber esperar
    E continuar a acreditar
    Sou uma grande mulher
    Que te quer
    Que te adora ouvir cantar
    So tu me consegues arrepiar
    Sou coracao
    Onde so tu es refrao
    Sim vou esperar
    Pois es meu sonhar
    Sim te quero
    Por ti ainda espera
    Beijinho

    Cristina Vieira

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