Para quê saber

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Hoje precisava de quem me resgatasse do meu cognitivo e me concedesse o direito de não viver refém de um coração audacioso como não sei igualar. Da euforia de ontem, ao cansaço da manhã, agora vejo-me colapsado naqueles momentos em que o nosso olhar se humedece e o tempo para, como se a vida quisesse ser toda repensada a uma velocidade que não sabemos discorrer. O privilégio de hiperbolizar as emoções vem com uma sombra pesada e custosa. Do parecer absolutamente feliz ao desequilíbrio de não nos sabermos chegar. Pudera eu viver sem certezas e descansar na imprevisibilidade com ginga e deleite. Deixo notas ao acaso na esperança de que ele comigo se atreva a estabelecer uma comunicação saudável. Há momentos em que o botão de emergência ou a palavra secreta fariam todo o sentido. Foi tudo tão bom que está na hora de retornar os pés a solo plausível e confortável. Desculpem se dependo por demais dessa sensação e conceito que tanto me apraz. Vivo uma relação de muitos anos com essa bandida da zona de conforto e neste momento sinto-me excruciado pela sua falta. Ressaco o meu quarto e os meus animais, a noção de continuidade na companhia e na agenda. Preciso de uma vida disciplinada para que o ritmo a que palpito seja tolerável. Sinto-me desfeito e por demais intenso na minha demanda. Só quero um abraço que dure o silêncio que me faz falta. Tudo bem espremido significa demasiado pouco e ainda assim é-me tão essencial que quase ruborizo ao constatar tal facto. Nada disto é verdade, mas tudo isto é qualquer coisa. Qualquer coisa já fricciona e eriça. Qualquer coisa já faz mossa e se encrosta. Há em mim um fado metaleiro que comove e destrói. Há em mim muito mais do que entrego e concedo, na certeza de que há pouco braços que amparem tão ambicioso peso e solidez. Há em mim o saudosismo dos idosos e a curiosidade das crianças. Que faço eu comigo se a maior vergonha pela qual alguma vez passei foi a assunção de que a liberdade é algo que me assusta e deixa profundamente apavorado? Tudo o que eu quero é pertencer, estabelecer e sobreviver. Comprometer-me, enraizar-me e ir ficando. Gosto de ser viciante e gosto de reclamar que me requeiram. Preciso que o façam e ultimamente sinto-me com a efemeridade de uma tendência. Volto, mas parto sempre, germinado um hiato permissivo que dará margem a tantos outros regressos e partidas. Temos que calçar os sapatos que nos andem e aguardar que o ciclo se remove. Podemos lamentar durante o percurso. Podemos deixar-nos consumir por isso. Podemos escrever sobre isso. Só não podemos fugir. E muito menos esquecer. A vida é um saco cheio de memórias e nós somos o nosso próprio Pai Natal em apuros. Rezamos para que o saco se rompa, para que nos dêem folga, para que não esperem tanto de nós, mas no fim de contas, não só carregamos as tralhas como ainda passamos sempre pela frustração de não ter acertado nos presentes. Os sorrisos adivinham-se sempre mais tímidos do que o expectável e o resto fica sempre aquém de maior sentido. A verdade é que o Pai Natal não existe e nós já temos idade para nos deixarmos desta parvoíce que é o sonho. A idade dos objectivos chega depressa, mas a criança fala sempre mais alto e interrompe a adultice com a mesma facilidade que suja a roupa. Nem sei bem o que vos digo ou porquê. Porquê é uma palavra pouco requintada para o nível de interrogação ao qual me sujeito. Para quê saber? Felizes dos que não padecem de qualquer carência de esclarecimento.

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1 COMENTÁRIO

  1. Ola, venho aqui te deixar um abraço apertado. Um beijo doce que secarão essas lagrimas de descontentamento. A vida e bela, deixa o coracao e a porta aberta, para a verdade e o amor entrar um dia na tua vida. Não entristecas da maneira como és, quem te conhece, quem gosta de ti aceita-te e respeitar-te-a da maneira como es. Lindo por dentro e por fora. Lindo coragem. Adoro o teu coração.Nunca conheci ninguém como tu, adoro-te.Beijinho grande meu Buda

    Cristina Vieira
    Para José Bicho. Um grande homem

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