Os amores e os trinta

1

A um ano de fazer trinta anos debato-me com balanços consecutivos apetrechados às minhas sinapses. Frustrações e ambições profissionais, contorcionismos económicos e uma maior valorização das coisas que antes, imatura e infantilmente, dava por adquiridas. Despedidas e saudações de tudo aquilo que oscila entre a permanência e a ausência. São tempos serenos embora não menos difíceis. A preparação é diferente e a noção de tempo também. Sabemos as coisas de outra forma, o que não faz com que tenhamos menos dúvidas, mas também nos permite lidar melhor com as mesmas.

Já não sei doer o grande amor que foi. Aceitei a sua ida e vivi outro com uma maior entrega e uma maior expectativa de que um dia também voaria. Sinto saudades de tudo o que me fez crescer, com gratidão e pragmatismo. Há sempre aquele alguém que não conseguimos dobrar e que se livrou de nós sem querer voltar. Há também sempre outro alguém que foi porque tinha que ser mas que saberemos ter deixado a porta entreaberta para que ainda nos voltemos a abraçar. E depois há o presente. Almas imberbes que queremos beijar mas que são de outra geração menos permeável aos nossos encantos e feitiços. Os focos de interesse mudam conforme o paradigma social e até musical e nós aprendemos que o mundo não e desenhado pelo nosso lápis, tendo a consciência que a graça desta passagem é essa mesma.

Como estou eu deste coração?

Estou feliz e grato pela sua dimensão. Qual "pensão piolho" que já acolheu todo o tipo de forasteiras e forasteiros. Dos meus amores, alguns sobreviveram às agruras da proximidade e sobrou uma amizade inquebrável que me acompanhará para o caixão. De outros sobra a mágoa de não nos termos sabido sobrar e resgatar das agruras da proximidade, do ciúme e da divergência. Há ainda os que não deixam qualquer resto e dos quais nem o nome recordo. Provavelmente não me terão na melhor conta, mas não me arrependo de que tenham existido. Se na altura me fizeram sentido e os quis, foi porque assim devia ser. Felizmente confio no meu discernimento e lucidez acima de qualquer estrutura cognitiva. Já estive para ser pai, já fui deixado, já deixei, já traí e já fui traído, sabendo que soube navegar ao longo desse extenso espectro que é o mar dos afectos. Experimentei o casual e o profundo com a mesma paixão. Soube apaixonar-me pela forma como me trataram mesmo não sentido uma aptidão natural por quem nessa demanda se aventurou e soube saturar com a minha entrega quem nem sequer me equacionava com tal protagonismo. Soube cair e levantar, gargalhando perante os joelhos esfolados de tais quedas.

A biblioteca de corações partidos vai-se adensando com a idade e o nosso vai começando a saber lidar com as brechas que se lhe vão abrindo. Cada vez custa menos, não sendo por isso menos intenso. Percebemos que a vida é cheia de twists e que nenhum realizador saberá ter a perícia necessária para o retratar de forma fidedigna. Já me apeteceu processar o argumentista desta merda toda e já me apeteceu beijar o realizador, tal a magia dos momentos que me permite captar com a alma durante o processo. Continuo sem saber ser actor mas lá me vou sabendo safar sem acesso a quaisquer didascálias.

Às vezes penso no meu grande amor sem ter quaisquer intenções de que outra vez se cruze comigo, aceitando a sua função didática na minha vida e consciente de que me tornou bom demais para si. Outras penso na última pessoa que vi partir, cedendo à vontade de a raptar de novo para os meus braços para conforto de ambos. Outras, penso na última pessoa que quis beijar e que elegantemente me rejeita e alicia pelo frescor inerente à sua idade, numa chico-espertice que me comove contemplar de forma quase piedosa. Pelo meio há aquela noite de verão que me proporcionou um momento tão especial que poderia ter parado por ali que me faria partir feliz. Tudo resumido equivale a uma ínfima percentagem de tudo o que me constrói, sem quaisquer comparações de importância porque tudo é essencial à minha estruturação. Arquiteto-me com bases diversas e não me admito viver sem este cocktail de questões cognitivas e emocionais. Sou feliz por me amar e amar o processo. Por não fechar portas e ter a audácia de abrir janelas. Por saber sobreviver à saudade, ao medo e à expectativa.

É tão bom quando percebemos a elasticidade da vida e a nossa consequente capacidade de adaptação à mesma. É possível amar incondicionalmente o que nos rodeia quando amamos a nossa posição perante isso mesmo.

Há desânimo sazonal, claro, mas há também uma certa serenidade na certeza que me acompanha de que se sobrevivi ao que está para trás, estou francamente mais preparado para me esbandalhar de encontro ao que está por vir.

É possível querer bem a tudo o que nos magoou quando aceitamos que fora uma peça essencial nas escadas que nos trouxeram até aqui. Regressar ao passado pode ser maravilhoso, saber levá-lo de forma graciosa até ao futuro pode ser bastante reconfortante, mas saber dar a mão ao presente é essencial.

1 COMENTÁRIO

  1. Nao estas a ser rejeitado. Quem espera sempre alcansa. Ve o tweet, blog e as outras mensagens. Ha alguem que ainda te espera. Beijinho grande. Tenta ver a pagina dela e o que lhe vai no coração. Felicidades meu Buda

    Beijinho grande doce

DEIXE UMA RESPOSTA