O Tempo

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Tenho dedicado muito tempo a pensar no tempo e na sua velocidade. Um ano para mim há muito tempo atrás era um tempo enorme, tinha tempo para tudo, cabia lá tudo. Hoje chego à conclusão que o tempo usa ténis de corrida e está sempre a correr e não espera por ninguém… corre, corre, corre, ninguém o apanha e não se cansa! O que é mais engraçado é a sua ubiquidade, o tempo está em todo lado, sempre presente, com o seu ponteiro frenético  dos segundos. Não o conseguimos agarrar, domar ou disciplinar, tem a sua disciplina própria e não admite um compasso diferente do seu. Depois de várias conversas domingueiras ao sol com areia à mistura e salpicos de brisas percebi que a avidez do tempo era algo que nos ligava de forma muito singular. Iniciámos há muitos anos um namoro interessante. Ele ensinou-me que corremos todos atrás de alguma coisa, com passos diferentes e caminhos divergentes, mas corremos. O que me continua a roubar sorrisos indignados na sombra da mudez é a expressão que às vezes me faz cócegas aos ouvidos “fazer tempo”. Como pode  alguém achar  que faz tempo? Não se faz tempo. O nosso relógio começou a dar horas em decrescente desde o dia que nascemos. Depois de lermos esta frase já escorregou aqui tempo e continua a e escorregar e a gastar-se. As pessoas não percebem isso, acham que têm sempre tempo e podem “fazer” tempo…. Isto tem uma graça inquietante porque eu acho sempre que o tempo brinca às escondidas comigo, tenho de o estar sempre a encontrar. Devido às suas gracinhas estou sempre a dar-lhe tarefas para que não se perca nele próprio, tenho de o rentabilizar e otimizar! Invento 1001 coisas para fazer, criar e construir, assim será um tempo ocupado. 

O hoje é menosprezado e o futuro tão aclamado….o futuro não existe, e o amanhã também não, a única coisa quetemos é o agora. Eu devo é andar com os tempos verbais trocados porque o meu futuro é hoje, agora, e não amanhã. O tempo desconstrói a matéria, apura a sensibilidade, ele na verdade não existe de forma orgânica, ele é o movimento da evolução das coisas, quando elas mudam e vemos uma diferença aí conseguimos acariciar invisivelmente o tempo. Depois há coisas que o anestesiam, o hábito. O hábito é o vício do tempo, verga-o, suga-lhe o movimento corta-lhe as pernas e fica meio coxo… parece um doente enfermo numa cama com lençóis de tédio de um hospital a gritar dolorosamente pela vida. São vícios obstinados difíceis de tratar…Depois existe algo que o cristaliza, o amor. Esse sim dá-lhe uma boa dose de xanax e obriga-o a abrandar, a sentar-se, a boiar meio ignoto. Mas tudo isto meio embriagado da falta de gravidade que o assola, anda a caminhar no ar e aí nem os ténis o safam! Fica ali, suspenso, a pairar, com um ar pasmo sem perceber nada e sem ponteiros. Aqui conseguimos apanhar o Obikwelu na curva e ganhar uma pequena vantagem sobre ele, até o efeito desse dardo durar e der lugar ao pulsar dos ponteiros. 

O tempo será assim sempre um enigma para mim, um namoro intemporal sem divórcio, algo que nos atravessa e não nos contorna como o vento. Para mim o tempo é um sopro que já passou, e continua a passar E passou agora outra vez. O tempo somos nós, pontos nas constelações da eternidade! 

 

Regina Pinto 

 

 

 

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