O Sal da Terra

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As pessoas são “O Sal da Terra”

 

 Ter o Wim Wenders a dirigir um documentário de Sebastião Salgado é  uma visão coronária e expectante onde nada poderia correr mal e, de facto, não correu! O Sal da Terra é um retrato fidedigno do seu âmago incomensurável. Diretor de obras exponenciais como Paris, Texas e Buena Vista Social Club, conseguiu com a sua mestria captar a alma de Salgado.Entrelaçado com a objetiva do fotógrafo, Wenders dá-nos uma narrativa a preto e branco, abraçando depoimentos com a câmara em close. Não falamos de uma obra didática mas sim de uma obra memorável legendada por sentimentos e experiências do próprio e, na primeira pessoa,onde vai saltando entre o francês, inglês e português.

Descortina-se o pano, entramos numa mina de ouro do Brasil,tudo foi pensado de forma holística e sequencial, é uma clara metáfora da histeria pelo poder que faz companhia à História desde a construções das pirâmides do Egipto até à Torre de Babel. As escadas vertiginosas onde todas as camadas sociais se empoleiram, vergam-se ao ouro tornando-os seus servos, sendo este esclavagismo captado por Salgado de forma esfomeada.

É um homem que se confunde com o pano de fundo, está presente de forma ausente e ubiquista.Por osmose, mistura-secom as tribos isoladas do México, comunidades da Amazónia ou Papua Nova-Guiné e balouça-se nos planaltos da Sibériatendo conhecido um camponês que lhe confessava com toda a seriedade: “Sebastião, eu sei que foste enviado pelos céus para nos observar”. 

Em Êxodos onde trabalha próximo dos Médicos Sem Fronteiras nas regiões migratórias em conflito entre a Etiópia e o Sudão e, posteriormente no Ruanda, a prostração dos corpos em romaria leva Salgado ao íntimo da insanidade e brutalidade humanaTodo este pérfido cenário fotográfico “com alma doente” forja as suas palavras dizendo em desabafque, O homem é um animal terrível, não merecemos viver!Depois de testemunhar a expressão blaséda doença e putrefação da própria espécie, Salgado atravessou uma fase de descrença profunda, tendo sido este desespero abraçado pela Terra, restituindo-lhe Esta a vontade de viver. Surge assim Génesis (2004-2013) onde o próprio diz que se limitou a “observar” .Viaja por terras onde Homem ainda não destruiu, um espólio que permanece praticamente inalterávelÉ um período de reflexão, introspeção, um mergulho de braços abertos na Natureza: “Faço tanto parte da natureza como uma tartaruga, como uma árvore, como um seixo”. Génesis é um retrato vivo da beleza da Terra, uma constelação de esperança, nascimento e vida.

Uma magnânima homenagem ao Planeta cujo o autor é um homem para lá de especial!
 
Regina Azevedo Pinto 
 
 
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