O ponto de viragem

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A viagem que mudou quase tudo. 


Chegámos a Maio de 2017 e dei comigo a questionar o universo circundante com maior intensidade do que sempre me fora habitual. São tempos idos estes que atravessamos e cada vez mais a insuficiência é o sentimento que mais se faz sentir presente na nossa rotina. Nada nunca chega. O dinheiro não chega, o tempo não chega, o esforço não chega, o amor não chega. Vivemos na ânsia de tudo o que falta e por mais que conquistemos e tenhamos parece sempre que não nos sabemos chegar. Porque efectivamente não há tempo para se ser e para realmente usufruir do que será esta história sádica que a comunidade ocidental nos faz crer ser vida. 

Perdi o meu pai no dia de Natal sem que pudéssemos demonstrar que nos percebíamos em segredo. A frustração consequente desta profissão instável e profundamente mal estruturada que escolhi por amor agiganta-se com o passar dos anos a um ritmo cada vez mais veloz, por saber que não vivo num paradigma social que privilegie a meritocracía e nos considere de uma forma continuada e respeitosa. Ver as pessoas cada vez mais pobres na conta e no olhar, cansadas e esmorecidas, cada vez mais dependentes de smart-phones e de cigarros é profundamente anti-balsâmico e contagioso. Anestesiados por anti-depressivos e aplicativos de fast-sex. Ver a minha família sem esperança no amanhã e conformada numa rotina de esforço que é respondido pela constante falta de tantas coisas que nunca percebemos quais serem. 
Estou a um ano de fazer 30 anos e a minha vida é por demais diferente daquela que idealizei por esta altura. Sinto estagnação e insatisfação. Cansaço das mesmas coisas que por mais que sejam vividas de forma exacerbada não se sabem constituir inesquecíveis. Decidi que este ano não iria cozinhar para os amigos mais e menos próximos que todos os dias sinto amarem-me e considerarem-me menos do que eu faço em retribuição e com gosto, dedicação e tantas vezes sacrifício. Somos todos tão circunstanciais que nem vale a pena continuar a fingir que assim não é. Trocamo-nos pelo telefone, e desaparecemos no dia a seguir a termos dito ser para sempre com fervor. Gostamos de nos impor realidades e relacionamentos idílicos quando no fundo todos sabemos não sermos assim, mesmo recriminando-nos por tal facto porque a sociedade assim nos exige. Somos sós, somos tristes e agarrarmo-nos desesperadamente às nossas verdades para nos justificarmos porque continuamos nesse caminho. Por isso mesmo quis estar longe de tudo o que me parecia dar sentido à minha vida, na esperança de me responder porque é que por mais que tenha e tente me sinto sempre aquém do que considero viver-me. 
Dia 4 de Maio andava eu algures pelo mercado da chinatown de Kuala Lumpur e eis que no meio de roupa de contrabando e frutos exóticos dou comigo a ouvir num qualquer rádio o “Foolish Games” da Jewel, que na minha cabeça começou a ecoar em crescendo e a juntar as peças de um puzzle que parece solucionar a minha ignição. A minha música favorita desde os meus 6 anos e aquela que primeiro me fez verter uma lágrima na sequência da sua audição, na inconsciência de um orgasmo espiritual que me viria a levar a escolher esta forma de expressão. Sobre perda e amor. Visceral e poética, de tal forma que é possível sentirmos na voz e nas palavras aquela tão agri-doce humilhação de amarmos ao ponto de nos impormos viver o amor da forma castradora e pouco credível que os filmes de Hollywood nos iludem ser plena. Percebi que isto só poderia dizer alguma coisa. Qual a probabilidade de um tema de 1996 estar aqui, neste dia a esta hora? Marquei esta viagem no último dia em que estive com o meu pai no hospital. Foi um impulso que não soube justificar mas que tinha a certeza ser importante de materializar. Pensei por diversas vezes em decidir desistir da mesma. Por medo, comodismo, porque o dinheiro me fará falta para outras obrigações que de bom grado dispensaria mas que são implícitas ao nosso modo de vida legal e social. Algo me dissuadiu de o fazer e vim. Sem chão nem expectativa. Acho que muitas vezes chego à conclusão que humanamente falando não podemos estar muito pior do que estamos. Porque não é só matar a fome e poder não ter dívidas que nos vai ensinar o que estamos aqui a fazer. Se Deus existe ele sabia que não haveria outra opção para que eu me soubesse reconciliar, mais do que aparente e socialmente, com a vida do que desta forma. Sempre fui fã da minha incoerência e a reguei com ternura e aceitação. Porque gosto de ser uma obra em constante crescimento e de não me impor ter que escolher uma profissão, um ideal, um caminho, um grupo de pessoas que se distinguem por factores acessórios, geográficos, sexuais, de estatuto e palavreado para me acompanharem e comigo interagirem. Não quero ser daqui a cinco anos o que sou hoje e só dessa forma poderei realmente sentir que se justifica ir por aqui a fora, ultrapassando obstáculos e cumprindo missões que apenas nós temos o direito de nos atribuir. Até enquanto vou escrevendo este texto me vou envergonhando com o fatalismo implícito na forma como relato a vida, como consequência do peso que lhe atribuo e que as minhas palavras acarretam. 

Aqui não haveria lugar para o fado e confesso que já fui muito mais adepto da tristeza do que hoje, ainda que a use maioritariamente como recurso estilístico. É cansativo tornar o vazio numa coisa cool. Metaforizar a vida para tentar adornar o que deveria chegar sendo simples. 
Chegámos à ilha de Koh Lipe e por diversas vezes ouvi as pessoas a exclamarem que poderiam eventualmente estar mortas e ter chegado ao paraíso. A verdade é que somos uns animais de preconceito e fantasmas morais que nos alimentamos de monstros tão doentes como a indústria farmacêutica, a política, o capitalismo ou a comunicação social. Sejamos francos e confessemos que estamos fartos de chineses e monhés no nosso Portugal a abrirem sucedaneamente negócios que contemplam cinco anos de isenções fiscais enquanto vemos os nossos a dormir em caixas de cartão pelos becos e ruas de Lisboa. Porque eles comem gatos e não lhes conhecemos os funerais, porque sabemos tratarem mal as mulheres e serem de um fundamentalismo atroz, porque os vemos como seres sádicos e pouco confiáveis, fanáticos e provavelmente com cheiro a caril. Sabemos que são conservadores e que a pena de morte pode ser atribuída por menos de nada e pensamos até que estarão a anos luz das nossas condições estruturais de vida. Já noticiámos e demos enfoque a alguns acontecimentos que nos são apresentados como insólitos por parte deste povo de déspotas que me é difícil não recordar o sem número de avisos que me foram endereçados por familiares e amigos antes de sair de Portugal: para não me meter em “coisas esquisitas”, para me vacinar, para colocar repelente, para fazer análises quando voltar, para ter cuidado com a mochila e para regatear tudo sem dar confiança a ninguém. 
Desde que aqui estou já quis chorar por diversas vezes pelo tanto que humana e espiritualmente me transbordei com o sem número de conclusões que até então me pareciam tão pouco óbvias. Sempre fui um maricas dos sentimentos e sempre me relacionei bem com o facto de me arriscar a doer para viver as coisas com compreensão e entrega. Eu que já fui de esquerda e de direita, que já fui gótico e beto, que já fui tão exemplar e tão merdoso e ainda assim nunca realmente me soube sentir eu. Estou num sítio onde descobri que podes não ter dinheiro por hoje mas que amanhã vai sempre existir qualquer coisa para fazer. 

Onde ando de pés desnudos e não houve um só segundo em que me sentisse inseguro, observado ou julgado. Onde encontro paz e ternura nos abraços e nos sorrisos. Não houve uma só circunstância em que sentisse falta dos abdominais que não tenho ou que me tenha feito sentido escolher a roupa que vou vestir por melhor me proteger ou afirmar. A beleza de cada um reside na sua capacidade de partilha e recepção. As pessoas são generosas e felizes. Enquanto vagueamos pelos caminhos da ilha somos invadidos pela esperança de que ainda é possível viver além da sobrevivência, sem um constante sobressalto económico e social que nos limita e condiciona a vontade de existir e de nos darmos ao que nos rodeia. 
Descobri por cá que estas areias brancas que ambicionamos são nada mais nada menos do que compostas por excrementos de peixe. Nunca sentir-me esfoliado por matéria fecal me fez tanto sentido, depois de concluir que atribuo a minha percepção de excremento a tantas coisas menos óbvias e comuns do que os próprios. Neste sítio os animais convivem entre si e conosco. Existem gatos e cães nos restaurantes, e aves e sapos nas recepções dos espaços, crianças de 3 anos a passearem com dragões de Komodo por uma trela e peixes que nadam nas nossas pernas num mar daquele azul que é impossível acreditar existir sem filtro ou maior contraste. Aqui o azul vem do céu e do mar e não do sangue que hierarquizamos socialmente. O verde é de esperança e não do capital que nos esmiframos todos os dias para possuir de forma a que nos possamos afirmar e viver com o conforto que imaginamos nos fará mais felizes. Gostava muito que os meus sobrinhos aprendessem mais sobre como é poder nadar nu durante a noite do que sobre a eminência constante de uma guerra mundial. Aqui as pessoas tocam-se sem conotações anexas e oferecem-se sem medo de quaisquer interpretações. Aqui os polícias sorriem-nos e dão-nos as boas vindas, transmitindo segurança em vez de se imporem através da força e transmitirem receio. 
Eu que sempre me imaginei a querer estabilizar, comprar uma casa e a ter um bom sofá e um bom plasma sei que voltarei para o meu país sem sequer conceber comprar um acessório decorativo. Já senti demasiada vergonha pela forma falaciosa como vivemos e concebemos ser-nos natural fazê-lo desde que aqui cheguei. Por cá não há bancos nem contabilistas, nem reality-shows nem áreas VIP. Não há relações públicas nem manequins. Aqui há a sensação de que para estas pessoas é uma benção cruzarem-se com cada viajante que os visita e tratam-nos que se realmente soubessem ser felizes pela nossa existência.

Como seria em Portugal se cada pessoa que conosco se cruzasse na rua ou numa esplanada nos saudasse com um sorriso nos lábios e nos perguntasse de onde vimos como quem realmente se interessa pelo que a nossa história lhes pode ensinar? Teríamos medo, provavelmente até alguma repulsa por tal ousadia, questionaríamos as suas intenções e provavelmente activaríamos o modo de defesa automaticamente. Aqui podemos esquecer o telefone em cima da mesa ou dormir na praia em segurança sem que sequer concebamos que alguém nos vá tentar afectar de alguma forma. Não há violência no trato nem no gesticular. Há apenas quem vive e deixa viver, sejas de que raça fores. Há conexão entre as espécies, e o mundo que nos foi dado e nós tentamos tão ansiosamente possuir e dominar para depois sem qualquer pudor destruir ainda nos acolhe na sua plenitude sem que o temamos e o consigamos amar. 
Aqui oferecem comida e dormida em troca de ajuda para cozinhar, pintar as paredes ou conduzir as motas que funcionam como transporte a quem por aqui passa, num sítio onde não existem estradas e não faz sentido calçar sapatos porque estamos bem descalços em qualquer lugar. Todos se cumprimentam e todos se abraçam, com a certeza de que há sempre lugar para mais um. Aqui, partilhamos alimentos e bebidas todas as segundas para limparmos as praias de forma a que o paraíso continue a sê-lo. Aqui não nos passa pela cabeça deixar um cigarro na areia embora se deite a cinza para o chão em qualquer lugar. Aqui, não há papel higiénico mas sim um pequeno chuveiro a ladear a sanita, para que se poupe o ambiente e se limpe convenientemente o rabo. Aqui, os empregados dos restaurantes correm para ver que vai buscar primeiro o pedido para poder servir ao cliente, numa competição saudável e ingénua entre si, e é fácil vê-los brincar consigo próprios e com a ideia que deles temos ao dizerem que temos que pagar para carregar o telemóvel ou a fingirem que o prato que aí vem não é o nosso, perante a nossa incredulidade diante de tal sentido de humor e candura nos seus rostos e forma de conosco interagirem. 
Não pretendo com este texto evangelizar ninguém, até porque temo que escrevê-lo poderá na pior das hipóteses aumentar a probabilidade de atrair um qualquer Ratcliff(o execrável vilão da Pocahontas) a este lugar virgem de capitalismos e falsas democracias, privatizando-o e escravizando os sonhos destes “selvagens” que por aqui ainda ousam viver como se deve. Como se pode perceber por Bali que se começa a assemelhar a uma espécie de Albufeira asiática com as celebridades nacionais a fazerem as suas promoções blogueiras em catadupa. Saio daqui um ser humano maior e com mais dúvidas de conseguirei tornar a ser pleno com a pequenez das coisas que o meu mundo daí me tem podido proporcionar. 

Equaciono convencer a minha família a vender tudo e a vir para cá. A minha irmã poderia realmente começar a ter tempo para os filhos e a trabalhar a um ritmo mais simples, vivendo rodeada de animais, de sol e de gente sincera e de bem como sei que gostaria. A minha mãe poderia finalmente ter os horários que se adequam a uma senhora da sua idade e talvez usufruir da vida para si como até então jamais pode fazer. Não sei se alguma vez um palco cheio de gente à minha frente chegará para me completar como estes dias têm feito. E isso assusta-me e instiga-me a perceber que há tanto mundo para ver. Provavelmente vocês dirão que fumei qualquer coisa esquisita e que me quero tornar hippie e eu não vou perder tempo a contrariar-vos sequer. Acho que só passando por esta experiência nos faz de facto ter a noção do quão errada é a nossa percepção da vida e no quão condicionadas estão as nossas atitudes e aspirações por pressões da sociedade e dos outros. Pelo que eles acharão e pela forma como seremos sempre considerados pelos nossos gostos e escolhas. Pensamos demasiado em tudo quando na realidade as coisas são tremendamente mais básicas e acessíveis de compreensão. Gostava muito que o meu Pai pudesse ter vindo aqui. Se eu tivesse uma doença terminal certamente que gastaria cada minuto do resto do meu tempo por cá. Acho que ele teria sido feliz como nunca o vi e ter-se-ia respondido com clareza sobre o facto de nunca se ter conseguido identificar com o mundo em redor e padecer de uma insatisfação crónica. Eu já percebi porque é que por mais que façamos nunca nos sabemos chegar. Porque corremos com toda a nossa força na direcção errada e porque depositamos a nossa satisfação em conceitos por demais frágeis e efémeras para que ela possa ser convenientemente concretizada. 
Deixo-vos com uma reflexão que daqui guardo e que resume tudo o que anteriormente vos confessei:

Havia um menino que vivia constantemente impaciente para saber como seria o futuro. Dia após dia o seu pensamento não conseguia evitar querer avançar no compasso das horas para descobrir o amanhã. Certo momento, um mago apareceu na sua vida e ofereceu-lhe um novelo para que ele pudesse avançar o tempo sempre que o desfiasse. Quando ele reparou, o novelo já tinha acabado e ele era velho. Tentou tornar a enrola-lo mas já não era possível porque o seu tempo tinha acabado e o que ele fizera com ele foi estar constantemente a tentar ultrapassá-lo. 

Sinto que se aqui ficasse, só conseguiria compor músicas felizes. Até agora e aí, nunca aconteceu. Agora sei porquê. 
Desde que cheguei só senti realmente falta dos meus animais e do meu piano. Nada mais. E peço-vos desculpa por isso. Porque de hoje em diante sei que sou ainda mais independente e que realmente nunca aí pertenci. E…Ai, como eu tentei…

Descobri que luxo é isto. Tempo para sermos, partilharmos e vivermos. Ninguém precisa de jacuzzi com este mar à porta. 

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4 COMENTÁRIOS

  1. Tem graça pois para onde vou sinto sempre a tua falta
    mas isso sou eu que sou uma romântica já não consigo viver
    sem te ouvir e saber que estás bem

    Beijinho grande
    cristina Vieira

  2. Es o Sol da minha cidade

    Vim a Lisboa
    Onde a vida será boa
    Minha linda cidade
    Onde esqueço a idade

    Vim com amor no coração
    Mas da canção não ouvi refrão
    Ele não apareceu
    E o dia esteve escuro como breu

    Queria i teu beijo
    E matar este desejo
    Fica para outra vez
    Para a proxima talvez

    Quero o teu abraço
    Apertado e sem espaço
    Quero despir a alma
    E andar cim mais calma

    Vim e não te encontrei
    Este encontro desejei
    Mas vou continuar a esperar
    Pois valeu e vale a pena te amar

    Ainda te quero
    Ainda te espero
    És perfeito em mim
    Cheiro de jardim

    Nota na minha pauta
    Meu instrumento e flauta
    Continuarás a ser canção
    Palpitação e coração

    Beijinho grande, no teu coracao de
    Ouro, Zé Bichoda tua Cris

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