O Pedro Abrunhosa de cor – Gala III

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Chegámos aos estúdios com um pequeno atraso originado pela minha falta de tempo e oito braços para gerir todo um quotidiano renovado. Os homens que estão a fazer obras na minha casa não as teriam terminado no dia anterior e sem que eu parecesse estavam de volta. Cedo se desvanecera o meu entusiasmo que pensara poder dormir mais uma hora por instruções da Madalena da promoção. Mentira. Eram oito da manhã e já os berbequins se faziam ouvir, levantando em mim uma onde de cólera.

Eu sempre fui desagradável de manhã. É uma coisa muito física e incontrolável, como se o lado amigável da minha pessoa ainda não estivesse conosco a horas prematuras.

Lá chegámos e rapidamente me fui munir de um pão de Deus misto e um pacotinho de leite com chocolate, qual criança de escola a debater-se com os seus ainda visíveis cristais do sono.

Vesti o meu casaquinho absolutamente incrível do Ricardo Andrez e sem grande paciência para conjugações rendi-me novamente ao preto e confiei o factor txanam a tal jaqueta galáctica, borrifando-me para o facto de ser exactamente o look que levei à Gala da GQ. Sim, eu também sei ser preguiçoso.

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Blazer – A Outra Face da Lua

Sobretudo – Ricardo Andrez

Calças – H&M

T-shirt – Zara

Loafers – Asos

Os imprevistos são sucedâneos é uma simples mudança de alinhamento pode instalar o caos. Na minha cabeça formulava também a certeza de que tal facto também alterava toda a nossa percepção do dia de trabalho.

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Se por um lado é aprazível ser dos primeiros a actuar pelo facto de ficarmos livres da responsabilidade de brilhar e podermos usufruir do show e das incríveis exibições dos nossos comparsas, por outro, ser dos últimos permite-nos ter um dia francamente mais folgado no que toca a estar sempre em bolandas, reféns do boneco que nos coalhada na rifa.

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É verdade, eu ia ser o último a actuar. Sabia que à noite ia odiar tal facto, mas durante o dia permitira-me estar muito mais descansado.

Tudo mudou e num ápice eu já era o quarto a actuar, fazendo com que a sala de caracterização entrasse em ebulição. Os disfarças que requerem próteses são os mais morosos e o tempo parecia agora pouco para me transformar no R Kelly.

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Rapidamente o Alxeredo me pediu no seu tom condescendente e grave se me podiam ser cortadas as pontas do cabelo. De outra forma o trabalho seria muito mais complexo e menos credível. Acedi rapidamente, embora ande com vontade de fazer um breve regresso ao passado. Já deixei de levar o meu cabelo tão a sério e adquiri alguma facilidade de mudança.

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Os pelos da barba eram-me colocados um a um e eu percebi que era bem mais difícil mudar-me de etnia do que de género. Quando dei por mim, olhei ao espelho e não me reconheci, percebendo que uma boa equipa faz prontamente frente à falta de tempo e cumpre com aquilo a que se propõe.

O tempo para jantar foi praticamente nulo. Enfiei um panado na boca, fumei o cigarro e fui aprumar-me. A barba fora imprescindível. Minutos antes gargalhámos com a sensação de que me tinham transformado num Pedro Abrunhosa de cor.

Pelo caminho bebi uma vodka laranja que o David trouxe para o camarim dos rapazes. Às vezes ajuda a libertar a fera e em palco é disso mesmo que se precisa.

Tentei manter a rigidez do personagem e abrir a goela. Borrifei no meu vibrato e arranhei-me todo. Foi sem espinhas.

Na minha óptica foi a minha melhor actuação até à data.

No vídeo desta semana falta a Melania que se me escapou. É tarefa difícil. Olhem só.

No final decidimos distribuir os pontos equalitariamente de forma a passar a batata quente para o júri. O Zeca deu-me os meus primeiros 12 pontos da temporada, dos quais estou profundamente grato. Sinto que foi a nossa melhor gala e que o grupo é digníssimo. A Melania tem um corpaço, a Carolina foi perfeita, a Marta tem o factor Fernanda Serrano, aquele brilho que perfura, o Jorge fez um Sting surpreendente e o Bon Jovi foi um bonito momento de glória do David que ganhou a noite.

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