O monstro do sucesso – Whitney: Can I be me

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Ontem à noite, pareceu-me o momento indicado para me afundar nos meus lençóis a debulhar o mais recente documentário sobre aquela que considero a melhor voz feminina na área da Pop de todos os tempos: Whitney Houston.

É aterrador perceber que os denominadores comuns ao declínio de grandes estrelas como Kurt Cobain, Amy Winehouse ou Whitney Houston são o sucesso, a família e o amor. Quão duro será ficarmos reféns da projecção que criámos de nós próprios? Das expectativas dos que outrora pareciam torcer pela nossa vitória e agora dependem da sua continuidade?

Nunca tanto me fez sentido aquele velho aviso: Be careful what you wish for.

Quando se quer realmente dedicar tempo à música é necessário percebermos que é imperativo torná-la também no nosso sustento. Há a natural sede de reconhecimento e a ânsia de poder partilhar o que de mais especial encerramos com grandes audiências. Uma vez bem sucedidos, somos então uma marca, valemos dinheiro e isso pode alterar toda a perspectiva daqueles que nos rodeiam sobre a nossa importância. Há a responsabilidade de não falhar, não apenas por vontade própria mas também por exigência dos demais que agora se afiguram a nosso cargo.

Deste documentário houve uma frase que me marcou particularmente: quando tens muito dinheiro, ou sustentas a tua família ou eles trabalham para ti.

Como imaginam, em ambos os cenários nos começaremos a mover em terrenos pantanosos. Nunca fui apologista de misturar as minhas relações pessoais com a lavoura. Acabaremos por viver os êxitos e falhas daqueles com quem partilhamos a vida laboral de maneira tendenciosa e por contaminar o nosso universo pessoal com questões que deveriam ficar do lado de fora da porta de casa.

Quando aspiramos a conseguir o reconhecimento de que falava, cedemos e moldamo-nos ao que nos é ensinado, nem que seja pela humildade de reconhecer que apenas temos e almejamos partilhar o nosso dom e provavelmente não possuímos qualquer visão comercial sobre o mesmo. Vive tudo de uma enorme dose de sonho, expectativa e até inconsciência. Existe um fosso abismal entre o que nós esperamos da música e o que os outros esperam de nós e do que pretendemos fazer com ela. Há que recordar a audiência de que, para quem vive a arte de forma tão visceral, toda esta aventura se inicia de forma catártica e acima de tudo apaixonada. Creio que, se de outra forma fosse, poucos de nós teríamos escolhido esta estrada.

Conseguimos perceber que nenhum destes artistas ambicionou ver a sua vida enjaulada por aquilo que outrora os libertara, talvez até de si próprios. Nenhum deles alguma vez pretendeu arquitectar uma vida perfeita, apetecível e muito menos vendável. Havia apenas a consciencialização de uma ferramenta abençoada e o ímpeto de a querer mostrar. Uns para exorcizar tantas coisas que não eram digeridas no quotidiano através de processos comuns, outros para apreenderem a aceitar-se e a amar-se.

Identifiquei-me com tantas passagens desta metragem que acabei por recordar todo o meu percurso e os sentimentos que dele tantas vezes despoletaram. É verdade que já tive francamente mais sucesso do que tenho nos dias que correm e também fui francamente mais infeliz do que sou actualmente. Porquê?

Inicialmente eu só queria cantar, poder mostrar o que sei fazer e eventualmente emocionar as pessoas como consequência dessa entrega. Quis aprisionar no papel a minha forma de verbalizar sentimentos que me inquietam e poder oferecer às pessoas tais escritos em tom de reconforto e afecto. Não vou dizer que não sinto saudades da massificação. Das plateias em que perdemos as pessoas de vista e até da forma hipócrita como tantos nos consideram em proporção ao nosso êxito. No entanto, há uma enorme sombra de todos estes contornos da indústria que eventualmente acabará por não ser compatível com a luz inerente a esta forma de se viver o que se faz com tamanho amor.

Lembro-me de ter 14 ou 15 anos e de num dia de espectáculo da minha antiga banda o nosso manager nos mostrar um DVD do Robbie Williams, no qual ele estaria em tour há quase dois anos, fazendo com que acordasse diariamente em quartos de hotel em locais diferentes do globo. Na minha inocência, recordo o olhar triste e cansado, o discurso ensaiado e o facto de dizer que não via a sua mãe há mais de seis meses. Robbie estava gordo, o olhar vazio e em menos de nada era empurrado para o palco para debitar o que fora ensaiado vezes sem conta e já não carecia de qualquer alma ou coração. Lembro-me de ver o brilho nos olhos da equipa que me rodeava e de me sentir assustado. "Não é isto que eu quero para mim. Tenho saudades de casa." Pensei eu.

Efectivamente, creio que vivemos esse duelo interior de forma contínua. Perfeito que seria se pudéssemos ser bem sucedidos através tão somente daquilo que somos. A verdade é que não acontece bem dessa forma. Primeiro, porque as modas são cíclicas e se hoje és the next big thing, amanhã já serás um apontamento na história. Segundo, porque uma vez tendo sucesso, acabarás sempre por ter essa fase como indicador do que deverás fazer e do que provavelmente esperarão de ti. Terceiro, porque és humano, cresces, mudas e correrás sempre o risco de ficares rotulado por um passado que foi de maior agrado dos teus interlocutores. Depois vem a dúvida e a frustração. Será que deixei de ter talento? Será que depois de agradar e dar dinheiro a ganhar a toda esta gente não terei o direito de fazer o que me apetece ou simplesmente ser feliz?

No caso dos três artistas que vos falei há a mágoa de serem rodeados por famílias que se apaixonaram por aquilo que eles lhes proporcionaram e não por si, potenciando comercialmente o seu declínio em detrimento do cuidado e amor que requeriam. Por outro lado, há a natural percepção dos mesmos em relação a tal flagelo, fazendo com que das consecutivas chamadas de atenção passem à resignação. Quão difícil será perceber que nos tornámos um número para aqueles que outrora nos incentivaram a seguir os nossos sonhos? Quão difícil será perceber que a concretização dos mesmos se tornara na nossa maior cruz?

De repente a fasquia estava estabelecida e não menos do que isso nos seria admitido. A pressão de termos visuais cinematográficos, o físico dentro dos padrões do desejável, a vida imaculada, o sorriso em riste e a performance jamais aquém daquilo que nos colocou em tal posição. Quando tudo isto se instala de forma cancerígena no nosso cognitivo há um sentimento de revolta que emerge e é em tom de provocação que nos atrevemos a ser humanos. A dizer algo que pode não ser bem interpretado, a vestir uma peça de roupa roçada e com nódoas, a não cumprir o protocolo…mas porque não poderei eu? Porque sou X?

Eu sou só eu. Vocês é que me tornaram X e esperam que eu o seja 24h por dia.

Whitney passou ao lado de um grande amor que possivelmente lhe teria preservado a saúde mental e a auto-estima extinta na dúvida de quem seria além do que tinha que parecer. O preconceito e os tablóides rapidamente condenaram tal possibilidade por se tratar de uma mulher. Uma cantora romântica negra jamais poderia estruturar a sua vida com uma mulher. Whitney quis libertar-se da diva que a tornaram e para isso foi condenada a lidar com a pressão, a desilusão e a crítica daqueles que tantos anos viveram à custa do seu talento.

Todos estes artistas foram vitimas da mágoa inerente a constatar que para os seus cônjuges e familiares não eram mais do que um veículo de luxo e crescimento sócio-económico. Todos estes artistas se sentiram sós e abandonados por todos os que entretanto os trocaram pela projecção gloriosa que a fama deles construíra.

Às vezes tens que parecer para ser. Uma vez nessa posição é-te cobrado o preço. Agora já não podes sequer ser e tens que para sempre parecer aquilo que foste. É a paga por teres sido um dia.

É importante perceber que fomos todos nós que os matámos. A verdade e o marketing são incompatíveis. O amor e o dinheiro também.

Longe que estou de partilhar de tamanhas sensibilidades ou capacidades executivas. Percebi que não sou um génio quando soprei as velas dos 28. Nunca quis morrer e desde cedo percebi que não seria feliz ao viver dessa forma. A música é talvez a peça mais importante da minha existência, mas nunca a única. Preciso de mim, dos meus, de rotinas absolutamente corriqueiras para contemplar o equilíbrio necessário a criar com honestidade e verdade. Talvez isso não me proporcione a ribalta e as condições de outrora, mas há muito tempo que não entro no palco sem vontade e saio dele a chorar. Acho que isso diz tudo.

1 COMENTÁRIO

  1. Gostei do texto e a grande homenagem que prestaste, principalmente pelo que disseste da grande senhora e cantora Whitney Houston, tenho pena que em pleno séc. XXI se continuem a rotular os artistas e a pensar que têm o direito de opinar sobre sua vida pessoal, assim se destroem carreiras e até vidas. No caso dela devíamos ouvi-la com o coração e dar valor à grande voz que ela têm, a vida pessoal é dela, devíamos estar contentes por ter encontrado um amor para partilhar sua vida, ninguém tem de opinar sobre a escolha sexual. É triste ainda haver tanta xenofobia, racismo, neste caso poderá se chamar também bulling. Quanto a ti nunca deixes de ser quem és, é isso que te faz um ser único, quem te conhecer saberá dar valor ao grande ser Humano que és, e em relação à tua grande voz que tens para cantar versátil, doce. Além de que colocas todo o sentimento em cada tema que cantas. Voltaram os tempos áureos, voltarás a sentir borboletas no estômago quando subires ao palco, e as lágrimas serão de alegria, se o não forem agora. Se tens medos aproveita a vencê-los agora, o Inverno virá e o tempo será de conforto e nova chama, verás tens de acreditar. Quem espera sempre alcança. Nunca deixes de ser quem és. És lindo por dentro e por fora, deixa-os falar, não são felizes, nem devem de fazer o que gostam, se perdem tempo a questionar tua vida e como te vestes ou despes, ou com quem. Vive e sorri, que a vida te sorrirá, tu mereces tudo de bom.

    Beijinho grande doce e cheio de coragem da
    Cristina Vieira
    Para o grande cantor e ser humano que és Zé Bicho

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