O meu maior medo

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Cedo descobri que o oposto do amor não é o ódio mas sim o medo. Há quem lhe chame freio, há quem lhe chame temor, há quem lhe chame receio, mas é ele quem nos inibe o amor.

Passo a explicar. Numa altura em que tanto se discutem temáticas tão controversas e, quanto a mim acessórias, como a igualdade de género ou o racismo, numa geração em que tais assuntos já não o deviam sequer ser, acabei por dar comigo a refletir sobre o medo da diferença com uma maior abrangência e globalidade em torno de tal temática.

Desde criança que me obriguei a vencer os meus temores de forma solitária. Tive medo do escuro, posteriormente tive medo da solidão, mas sempre tive uma reacção pouco natural à existência de cobras. Nunca o consegui perceber ou justificar, sendo eu amante incondicional da vida animal, mas a verdade é que talvez sejam das poucas coisas que me faz perder a razão. Jamais tive repulsa de pombos ou de baratas, jamais me incomodei com a existência de tubarões ou jacarés, mas a cobra sempre me fascinou e paralisou, paradoxalmente, tendo um efeito sobre mim que extrapola o controle que sempre me exigi.

O medo do escuro, venci-o trancado no quarto, a ver todo o tipo de filmes de terror, desbravando os caminhos da mente e tomando consciência de que o maior perigo do planeta não são espíritos nem zombies, mas os diversos cidadãos que nos rodeiam e em si encerram todo o tipo de emoções e condutas menos aceitáveis. Não só venci tal receio como me apaixonei pelo género, consciente de não ser o mais enriquecedor e profundo em termos intelectuais, mas transformando-o em entretenimento puro e duro. Já pouco me choca ou espanta depois de ter visto metragens tão sórdidas como o Serbian Film, o Martyrs ou a Centopeia Humana. É verdade, gosto de todos e retiro prazer da sua visualização, fazendo até pouco dos seus protagonistas por tão facilmente se meterem em situações às quais eu jamais, voluntariamente, estaria exposto.

O medo da solidão foi sendo ultrapassado com a idade, anos e anos após viver rodeado de gente, apreciando uma grande afluência de população na minha casa, numa busca constante e interminável por aceitação e partilha. Aprendi de forma custosa e demorada a apreciar a exclusividade de um espaço ou momento. Comecei a degustar instantes de mera contemplação, nos quais posso falar com os meus botões, acariciar-me ou pura e simplesmente viver os meus desarranjos intestinais sem quaisquer constrangimentos ou interrupções. Existir simplesmente, sem condicionantes e avaliações alheias. Percebemos que o nosso melhor amigo e mais reconfortante companhia devemos ser nós e começamos a ver a presença dos demais como um prazer opcional e não uma necessidade ou dependência.

O das cobras foi sempre permanecendo, alojado num sítio onde residem as inúmeras pergunta sem resposta que ainda encerro. Foi um medo transversal a todas as idades e tantas vezes tema de conversa entre os que me rodeiam. São um animal que me incomoda e eriça. Que me intimida e me faz sentir pequeno perante aquilo que delas expecto. Hoje foi o dia em que me exigi tentar perceber o porquê e acima de tudo, contornar esse incómodo.

Dei comigo a pensar que, sempre que algo ou alguém nos desperta sentimentos de medo ou repugnância, o problema reside em nós próprios e na nossa percepção do mesmo. Os demais, não só têm o direito a ser como são, como também não podem contribuir para esta repulsa pela sua mera e involuntária existência. Sejam eles cobras, pretos, gays, comunistas, gordos, kizombeiros ou quaisquer outros sujeitos fora daquilo que a nossa realidade social contemple em maior quantidade ou não se insira no nosso leque de interesses. A verdade é que eu sou muito mais feliz quando gosto ou me sinto confortável com algum sujeito de estudo do que quando o temo. Felizmente fui educado de uma forma que nunca me permitiu desejar que aquilo com o qual eu não me identifico fosse exterminado. Talvez com excepção da ignorância, da intolerância e de tudo aquilo que moleste e se imponha a qualquer outro ser vivo de forma violenta e opressiva. Sempre achei dever haver espaço e margem para pura e simplesmente me afastar sem ter que condenar os outros à ausência dessa escolha, caso assim o entendam. Talvez não seja esta a minha opinião se nos debatermos sobre uma tourada ou um casamento com menores indevidamente formados e preparados para ter relações ou sequer compreender o matrimónio. Quando violamos o direito de escolha e o direito à existência estamos a apunhalar a racionalidade que tantas vezes e erroneamente nos permite superiorizarmo-nos aos demais com base na mesma. Talvez este seja o único ponto no qual não me exijo quaisquer esclarecimentos futuros. Serei sempre contra tudo aquilo que sujeite alguém a experienciar qualquer tipo de dor involuntária. Nem tão pouco alguma vez fui fã da dor ou de sentimentos de adrenalina. Claro está que se alguém apreciar a mesma e a viva de forma individual e consciente, força. Só não metam terceiros ao barulho e já está tudo como deve ser.

E é aí que entra a segunda matéria desta minha reflexão. Não só sou uma boa boca como também um cozinheiro razoavelmente competente. Sou absolutamente apaixonado pela nossa gastronomia e venho de uma família tipicamente portuguesa, que nunca se inibiu de nos proporcionar refeições fartas e diversificadas. Sempre se comeu um bom cozido à portuguesa, uma boa feijoada, um bom arroz de pato. Claro que isso me aguçou o apetite e me apurou a naturalidade com que sempre lidei com isso. Custa-me a ideia de não tornar a comer uma boa picanha ou uma farinheira, mas, na verdade, cada vez menos convivo de forma pacífica com esta realidade. Não tenho a mesma serenidade ao manusear carne crua nem tão pouco a ver os amimais mortos em exposição nas vitrinas de super-mercado. Dou comigo a assumir a enorme hipocrisia que é ainda me alimentar desta forma, porque só o faço porque alguém já tratou do trabalho sujo por mim e me posso dar ao privilégio de adquirir a matéria devidamente tratada e embalada. Se tivesse que matar os animais que como, estou certo de que jamais o faria ou me sentiria confortável com isso, não estivéssemos nós em pleno século XXI, e já teria encontrado outras soluções. Embora ainda não tenha tido coragem para embarcar em tal dieta, da mesma forma que ainda não sei ir ao ginásio com a disciplina que gostaria, ou deixei de fumar como a morte do meu Pai já me deveria ter incutido de forma instantânea a fazer, a verdade é que me debato com estas questões e já não sei coabitar com elas de forma despreocupada e inconsciente. Nesse sentido, confesso alguma incredulidade perante quem pratica diariamente outra ramificação do que chamamos racismo. A facilidade com que defendemos a ausência de carne vermelha na nossa alimentação mas não usamos a mesma medida quando pensamos num frango ou num peixe, porque na realidade não somos ninguém para estabelecer uma tabela de valor animal consoante a nossa proximidade com cada espécie o que delas poderemos retirar para nosso exclusivo prazer ou utilidade. Os inúmeros indignados que exaltam quando equacionamos que alguém possa comer cão ou gato mas que todos os dias se lambuzam com um bom bife de vaca. O que é que uma vaca tem a menos que o meu César? Quem sou eu para definir esta tabela de valorizações?

Foi talvez por isto que hoje decidi fechar os olhos e me obriguei a pegar nas minhas amigas execráveis. Tremi por dentro, serrei os dentes, senti-me um maricas e um merdas, mas fi-lo. Fi-lo porque não poderá ser sobre elas que recai a culpa desta inquietação, mas sobre mim e a minha forma de reagir às mesmas. São o que são e têm tanto direito a existir no nosso planeta como qualquer um de nós. Eu tenho o direito de não gostar, mas preferia não o fazer, e talvez por isso me instigue sempre a dissecar o porquê de algo ou alguém me deixar em estado de alerta, sendo certo que reside em mim a resposta para solucionar essa questão. A dada altura, percebi que também o meu incomodo poderia estar a transmitir sensações menos simpáticas aos animais que nos meus braços foram colocados. Creio que nenhum de nós gosta de induzir medo aos demais, por questões alheias a uma escolha consciente, como o nosso aspecto, a nossa raça ou a nossa mera existência.

Se gosto de cobras? Não. Mas gosto de ter tido a capacidade para ultrapassar essa repulsa e para perceber que são tão dignas ou importantes no universo como qualquer um de nós. O que vos quero transmitir é que é melhor amar do que recear. É melhor sentirmos entrega, mesmo que ela nos cause algum frio na barriga, do que receio. Talvez se soubermos exalar esse tipo de sentimentos o mundo nos abrace de forma mais terna e tenhamos menos dores de cabeça.

Não tenham medo do que não percebem. Não desejem a extinção do que não vos agrada. Tentem perceber o porquê e encontrar uma forma de conviver de forma confortável com essa realidade. Viver não é uma batalha pela ocupação de um território. Viver é perceber que somos só mais um pontinho em movimento nesta grande coisa azul e que a melhor maneira de lhe sobreviver é sabermos e honrarmos o nosso devido lugar sem ambicionarmos ter mais espaço com a retirada do mesmo direito por parte dos demais.

Não borrei a cueca, mas quase.

5 COMENTÁRIOS

  1. Adorei o texto, admirei a tua coragem, no jardim da minha mãe ás vezes apareciam cobras e eu desde pequena é que tive de lidar com elas, sempre gostei de animais e nunca tive medo delas, mas uma desse tamanho não sei se conseguiria colocar ao pescoço. Estou farta desta sociedade que nos recrimina a toda a hora por sermos diferentes, ou na maneira de pensar ou simplesmente vestir. Não estamos aqui para mudar os outros, mas ás vezes com nossas atitudes, e com uma conversa com inteligência conseguimos mudar mentalidades, gosto de ser como sou, por isso tenho amigos para a vida, com os quais tenho lealdade e podem contar sempre comigo. Sei que és um pouco assim diferente e sem muitos medos, gosto de ti por seres quem és. Sempre aceitando os desafios da vida e procurando vencer teus medos, tal como eu. Quanto ao amor, se nos amarmos a nós próprios o outro que amar saberá respeitar e aceitar quem tu és, ser humano lindo sempre em crescimento. Quem espera sempre alcança, não desesperes, nem tenhas medo do amor nunca. Beijinho grande desta que te admira e te respeita muito pelo grande Homem que és, lutador, empreendedor, cantos e grande ser humano com um caracter lindo. Beijinho grande desta que te lê e ouve todos os dias. Felicidades meu Buda

    Cristina Vieira
    p/ Zé Bicho (Darko)

  2. Olá Darko (para mim Zé Manel) conheço-te desde menino. Para mim foste um menino prodígio. Nunca te vi pessoalmente. Mas vivo no mesmo prédio duma prima tua a Helena Bicho, de quem sou amiga. Ela apresentou-me o priminho que era o seu orgulho! Desde aí comecei a admirar-te. Também penso que uma prima minha Maria Ester Vargas foi tua professora em S. Pedro do Sul. Penso que sejas amigo talvez virtual, do filho dela, o Miguel Vargas. Bem queria felicitar-te pela tua coragem e acabei por falar das famílias de cada um de nós!!! Desejo-te as maiores felicidades.

  3. Revejo-me nas tuas palavras, sempre enfrentei meus medos sozinha, tambem fiz o mesmo com filmes de terror, e mais tarde foi o mefo das alturas, fui a uma varanda de um prédio no 9o andar e olhei para baixo, nunca mais tive medo. Na escola Antonio Arroio, havia todo o tipo de jovens, chamados diferentes, na sua maneira de vestir, pensar e escolhas sexuais, sempre me dei com todos, sem julgamentos, o meu melhor amigo era gay, uma das pessoas mais semsiveis, inteligentes e meiga que conheci até hoje. Estou numa terra (Beja) , em que uma das pessoas que me da mais prazer tomar café também o é, não me interessa o que dizem, aprendi a afastar-me das pessoas que me fazem mal ou não interessam. Não sou racista e incomoda-me quem o é. Sempre terás em mim uma amiga para enfrentar teus medos, se quizeres. Tudo de bom para ti alma linda.

    Beijinho grande e doce
    Parabéns por teres conseguido ultrapassar mais este medo. Adorei tua coragem

    Uma amiga para a vida meu Buda
    Cristina Vieira

  4. Receita vegetariana: Salsichas de soja em couve lombarda. Colocas a couve lombarda a cozer com um pouco de sal marinho. Fazes um arroz branco à parte, refoga 1º um pouco de cebola e coloca o arroz sem lavar.
    Noutro tacho a parte, refogas uma cebola, alhos e um tomate em azeite, depois de aloirar um pouco colocas as salsichas de soja, temperas com oregãos, tomilho, açafrão (dá sabor e é anti inflamatório e não só) e pimentão, se gostares podes colocar um pouco de pimenta q.b (que faz bem ao coração e evita teres gases), cuidado se colocares o pimentão pois já tem um trago apimentado. Por fim colocas a couve lombarda já cozida e mexes, para absorver os temperos. Eu não me dou ao trabalho de a enrolar, nem colocar palitos a prender a couve, que só dão trabalho depois a retirar e um descuido alguém se pode ferir.
    Depois de cozinhar um pouco para apurar, serves com o arroz branco.
    Bom apetite, opção vegetariana não muito dispendiosa, não custa muito a fazer e não demora muito a executar.

    Beijinho grande amigo
    Cristina Vieira

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