O Justino da discórdia – Gala V

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Embora este seja o último dia em que somos condenados a este ritmo alucinante de gravação de duas galas por semana, confesso que o cansaço já começa a dar de si.

Depois de uma Christina Aguilera que me deu um enorme prazer fazer por motivos óbvios e mais que não seja por estar a homenagear uma das vozes que mais admiro na indústria, chegou a vez de um Justin Timberlake que pouco ou nada se reflecte em mim.

Sem desprimor para o artista, que considero dos mais completos da actualidade, sinto que é um desafio distante das minhas reais valências e que pede outro tipo de características que não as minhas.

O dia começou sem grandes altercações, embora rapidamente percebesse que pela primeira vez iria experienciar o facto de ser o último a actuar, longe ainda de imaginar que tal facto seria profundamente importante para a travessia emocional que este dia me faria atravessar.

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Camisa: Eduardo Amorim

Calça: Eduardo Amorim

Blazer: Zara

Botas: Green Boots

Foi a meio da manhã que recebi a notícia de que a melhor amiga teria saído de casa sem o telefone e o casaco e estaria em paradeiro incerto. Nada seria alarmante não fosse ela bipolar, clinicamente atestada, e eu conhecesse bem os sintomas das suas crises. Na verdade somos como se fossemos irmãos. Conhecemo-nos, protegemo-nos, amamo-nos e cuidarmo-nos. Ao longo da minha vida fui a pessoa mais presente nesta sua frágil demanda e por mais do que uma vez fui eu que tive de intervir perante os pais e os médicos para que a pudessem ajudar. Quem padece deste tipo de maleita não tem discernimento para decidir sozinho se ainda está capaz de lidar com as coisas ou não e a verdade é que se estes surtos não forem atalhados atempadamente, facilmente as coisas se descontrolam.

Estava longe de casa, na venda do Pinheiro, a ter que trabalhar, sorrir e fazer palhaçadas. O meu corpo manteve o profissionalismo e cumpriu, mas a minha cabeça desde cedo voou para onde o meu coração a chamou.

Foi durante um cigarro no exterior que não consegui conter as lágrimas e a querida Raquel Pavão da maquilhagem e a Carolina Torres me abraçaram. Nestas alturas não sei expressar-me ou tão pouco socializar. Recolho-me na minha bolha e no meu telefone em busca de notícias.

Esta foi a ignição necessária para despoletar uma série de fragilidades que não têm lugar no meu quotidiano mais comum. Refugiei-me no meu camarim e cedi ao veloz pensamento que tantas vezes se agiganta como um carrasco na minha existência.

Pela primeira vez pensei, qual criança teimosa, que não queria estar aqui, que não queria brincar mais a isto. Olhei para o espelho e senti que estava a abdicar daquilo que me deu a segurança necessária para enfrentar o mundo diariamente: a minha identidade.

Já não me reconhecia. Estava depilado, sem barba, com sono, a ter que dançar como não sei fazer, cheio de maquilhagem e com uma roupa foleira de meter dó aos Excesso. Sim, porque o meu Justin era vintage e pré-sexy back.

Todas as situações criam bloqueios mentais e vocais que não sabemos controlar e se por um lado sempre achei que o meu falsete salvaria esta actuação que desde início me era desconfortável, verifiquei que este se tornara a minha maldição durante o dia de hoje. Esta sensação acontece-me algumas vezes no estúdio durante a gravação dos temas, tal é a ânsia de nos superarmos e sermos perfeitos. Tudo sai imaculadamente até ao momento em que alguém carrega no botão de gravação e as tarefas se transfiguram num calcanhar de Aquiles que há segundos não existia, quando protegidos da responsabilidade de deixar um registo perene.

Percebi ainda durante o ensaio que a minha mente me iria atraiçoar. Não a minha voz, mas as tantas que guardo nesta cabeça turbulenta e milimétrica. Fiz o ensaio de forma amorfa e alheada, cumpri com o que me foi pedido e refugiei-me no camarim na esperança de conseguir sossegar.

Dormir não foi possível, entre telefonemas para os amigos mais chegados e pensamentos menos bonitos. Senti falta da minha Mãe, como não sentia há algum tempo. Já não nos vemos há semanas e nestas alturas só aquele abraço poderia dissipar quaisquer dúvidas. Escrevi um post sobre isso, numa clara chamada de atenção à única pessoa que me poderia realmente perceber: a própria.

Nestes dias a Mãe não me telefona. Sabe que estou a trabalhar, que quero ser implacável, rigoroso e que não sei transpirar simpatia quando estou atarefado. Por isso mesmo, enviou-me um Mail que passo a transcrever, porque gosto de celebrar o nosso amor e me orgulho de poder tê-lo sempre comigo quando o meu coraçãozinho começa a derrapar.

“Meu amor que tens tu? Acabei de ler o post do facebook e só podes estar muito stressado ou triste para escreveres o que sentes numa rede social. Pudera eu, vivias comigo e estávamos juntos sempre. Mas sei que tens a tua vida, a tua carreira, os teus amigos…enfim, precisas da tua independência e não de uma mãe/sombra. Mas as mães são mesmo assim. Vou tentar ir aí no fim de semana para matarmos saudades, ok? Não te quero triste, por favor. E, quando puderes sossega-me, ok? Só preciso de saber se estás bem – embora estafado – e se tudo está a correr bem. Não te preocupes em ganhar mas sim e tão só em fazer uma prestação digna e essa, tu fá-la sempre muito bem.

Beijinho enorme

Mãe”

Rapidamente lhe respondi, precisava de responder. Precisava de soltar as coisas que me inquietavam num dia em que claramente me senti fora do meu habitat e precisava da minha quietude para me restabelecer.

“São dias Mãezinha…

Sabes que sempre me habituei a amar o que faço, a fazer ao meu ritmo e acima de tudo com muita identidade. As experiências de desintegração social que tive na infância e na adolescência criaram escudos protectores que existem mas que na realidade nunca colmataram determinadas inseguranças e receios. Odeio sentir-me exposto à aprovação de terceiros, odeio sentir-me a teste, odeio ter que tentar ser quem não sou e fazer as coisas de formas que não a minha. Tem sido um desafio enorme, didático e proveitoso a vários níveis. Mas sim, estou a acusar o cansaço. Este não é o meu ritmo, o meu ambiente, as minhas pessoas. Talvez eu não seja maior profissionalmente nem nunca venha a ser porque eu preciso sempre da minha concha para ser feliz. Para que o meu dom seja partilhado no seu esplendor tem sempre que haver verdade e entrega. Eu não sei nem quero saber ser mecânico. Por outro lado, tenho menos tempo para a minha casa, e eu adoro ser doméstico. Sinto falta de outros tempos, de outros sonhos, de outra dinâmica na minha vida que vinha de outra inocência e talvez inconsciência. Na realidade tudo corre bem. Nos Fingertips também corria..se me faz feliz? Não sei. É um paradoxo. Estou cansado. Muito. Vejo a minha amiga perder o controlo porque é doente e ninguém faz nada. Quase como uma vítima de violência doméstica que embora faça quinhentos pedidos de ajuda, precisa de aparecer morta para alguém intervir.

É um pouco de tudo…

Há dias assim.

Saudades. Muitas.

Beijo”

Sei que pela primeira vez, não tive oportunidade de ver os meus colegas actuar e fiquei sozinho no camarim até ser inevitável descer e tentar recriar o Michael Jackson da actualidade. Pensei que só um momento de adrenalina me poderia salvar do meu estado de apatia.

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Curiosamente, achei que iria ter uma coreografia ambiciosa nesta performance mas percebi que até para os bailarinos é complexo recriar os passos daquele vídeo, compreendendo a benevolência do Cifrão, de quem gosto profundamente, em simplificar as coisas. Mas esse não sou eu… Não sei fazer pela metade e se por um lado já estava inseguro e danado com a vida, por outro, também não haveria muito a perder.

Fechei os olhos e dancei. Noventa por cento daquela dança foi da minha imaginação e cabeça e à data que vos escrevo este texto ainda não vi o programa em televisão para perceber o resultado.

De certa forma, é ingrato, porque a ideia com que ficamos das coisas em estúdio é sempre muito diferente do que passa para casa. Terminei com diversas sensações dentro de mim. Pela primeira vez sei que desafinei, que a voz me falhou e que ficou claramente aquém do que sei e posso fazer. Os comentários do júri foram entusiásticos e percebi que não poderia ter corrido assim tão mal, embora a minha opinião seja soberana e eu saiba que não vou ficar satisfeito quando me vir.

Fica aqui o vídeo da praxe:

Não fui feliz a fazer de Justin Timberlake. Não fui feliz durante este dia. No entanto, sei que fiz o melhor que pude e também sei que na próxima gala não me permitirei ser menos do que sublime.

By Darko

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5 COMENTÁRIOS

  1. Darko, nem tofos os dias são fáceis. Nem todos os momentos calmos. É com isso que temos de viver. Foste profissional. Não desistir até ao fim. Boa semana

  2. Depois de tanto sorrir com a tua companhia musical hoje, agora chorei… Desculpa…
    Dói tanto saber de tudo isso…
    Mas ao mesmo tempo sinto cada vez mais orgulho, porque o teu profissionalismo é grande e mesmo com o coração pequenino dizes te tanto!
    Beijo, abraço e força….
    Palavras faltam, por isso mesmo, o mesmo de sempre….
    Desejos de muito sucesso!

  3. Depois de tanto sorrir com a tua companhia musical hoje, agora chorei… Desculpa…
    Dói tanto saber de tudo isso…
    Mas ao mesmo tempo sinto cada vez mais orgulho, porque o teu profissionalismo é grande e mesmo com o coração pequenino fises te tanto!
    Beijo, abraço e força….
    Palavras faltam, por isso mesmo, o mesmo de sempre….
    Desejos de muito sucesso!

  4. Aqui está uma das provas do grande ser Humano que és e ao mesmo tempo grande profissional. Quem te viu a cantar, nem sabe como estavas de coração apertadinho. Espero que a tua amiga, esteja melhor, a Yoga ajuda muito. Adorei a carta de amor, respeito e de saudade da tua mãe, grande senhora com um grande filho. Adorei a resposta que lhe envias-te, gostei muito das tuas palavras, para aquela que te ama tanto. Tens uma grande voz e és um grande profissional, mas tudo isso se deve também ao grande apoio da tua família, pelo teu esforço diário e continuo. Admiro-te e respeito-te muito.

    Beijinho grande do coração para o
    teu grande coração Zé Bicho
    da Cristina Vieira

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