O aeroporto do Martim

0

Sempre olhei para a zona do Martim Moniz e para a sua periferia com uns olhos ávidos de algo que eu  própria desconheço. A sensação quando me aproximo é que estou a entrar para um aeroporto sem ter pago sequer o bilhete cujo os destinos são vários. Banha-me a alma uma sensação de frescura, estou a entrar num país diferente onde tudo é novo!

Nesta aterragem convido todos a observarem um jogo emocionante de críquete aos pés da praça Martim Moniz com as claques mais frenéticas e fiscalizadoras. Tudo isto se passa nos interlúdios dos jatos de água que brotam da fonte que circunda o “campo”. No intervalo podem ir comprar um Kebab maravilhoso ao lado do Hotel Mundial, que torna ainda mais realista a experiência. Entra-se num estado de sinestesia ambulante, somos estimulados por tudo, por cheiros que não são os nossos, indumentárias diferentes, perfumes ativos, línguas que não entendemos. Como admiro a diversidade cultural! 

Quando começamos a subir a Almirante Reis a quantidade de supermercados e lojas que nos convidam é enorme e, entrar neles é uma aventuraFaz-me recordar a sensação que tive quando entrei na labiríntica Chinatown na Malásia, um micro país dentro de outro, com uma estrutura própria, economias de mercado implementadas, onde a lei da oferta ultrapassa  qualquer gráfico! Chineses encostados às paredes das suas lojas, fumam cigarros com cheiros peculiares, enquanto observam detalhadamente os transeuntes  não autóctonesdessa zona.Sinto que existe ali um pequeno diálogo entre as retinas, mas este é pacificador e cooperante, a mais primitiva e intensa comunicação, o olhar.Após todas estas conversas mímicas do globo ocular, entro num dos supermercados para comprar óleo de palma e pirão, para poder fazer a minha moamba de dupla nacionalidade.

Oh minina, sabe bater o pirão? – diz uma voz experiente preocupada enquanto me preparo para pagar.

Sei sim, a minha mãe é angolana, ela já me ensinou!– respondo eu orgulhosa.

Ah! A minina é pula (portugueses brancos) – diz-me ela a sorrir com as sobrancelhas arqueadas.

E assim lá sai a “pula” toda contente do supermercado munida dos ingredientes que tanto queria. São sitio onde gosto de ir, passear e me misturar, onde existe uma renovação e onde sãodesencrostadas rotinas com cheiro mofo.

E o passeio continua, para quem aprecia noodles, recomendo vivamente uma ida ao restaurante Vietnamita Pho-Pu, onde se podem saborear uns verdadeiramente genuínoscontendo aquela taça toda a saudade que uma Ásia nos deixa a baloiçar no coração! Para os mais destemidos, o chinês clandestino é uma opção válida, teremos é de ir despidos de preconceitos e deixar penduradas no bengaleiro todas as nossas intolerâncias, depois de jantarmos, com calma, podemos ir busca-las e rirmo-nos jocosamente mas satisfeitos pelo jantar que tivemos e pelo preço que pagamos. Aqui, saímos literalmente da confort zone, qual livro de reclamação, quais pálpebras cerradas que emanam insatisfação, qual quê, é o que há, adapte-se!

E no fim, o que me deixa mais pensativa é quando me despeço do nobre cavaleiro Martim Moniz recordo-me da lenda em como morreu entalado a lutar contra os mouros  tornando-se assim um mártir cristão. Aí penso em como avida é curiosa, tendo sido ele perpetuado no epicentro Lisboeta da multiculturalidade, onde a companhia para a sua altivez solitária em cima do cavalo são aqueles que o mataram. 

 

De facto, a memória da vida não se pode subestimar!

 

Regina Pinto

 

 

COMPARTILHAR
Artigo anteriorDe Reis a 2016
Próximo artigo250 anos de Bocage

DEIXE UMA RESPOSTA