Não consigo dormir

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Não se parte o coração de uma menina
 
Não consigo dormir. Não tenho conseguido dormir bem nos últimos tempos. É na quietude da noite que a minha mente fica com mais turbulência. A minha avó está cansada de me ouvir passear pela casa e já não suporta o cheiro das torradas de madrugada. 
 


Queria que me ligasses, sem compromissos. Mesmo que não tivesses nada para dizer, não faz mal. Sei que o silêncio é algo que te deixa constrangido, a mim também, todavia estarias comigo do outro lado da linha até eu conseguir encontrar harmonia
 
Não penses que por estar em cima de ti, abraçada ao teu peito depois de termos fodido, signifique que exista uma maior ligação. No silêncio também podemos ser um do outro. Não cheguei a saber como seria. Sufoquei-me com palavras, com risos, com cafés, com beijos, com lençóis, com gemidos. 
 
Não era isso. Foi só um pretexto. Apesar de ter saudades, não iriamos sobreviver muito tempo. Não te assustes, eu também me assustei quando percebi. Talvez não percebas, não era suposto envolver-me tanto. Enganei-me a mim e a ti quando achei que estava desprovida de o sentir. O amor decidiu conhecer-me e agora não sou a mesma pessoa. Tu és. 
 
És a repetição dos homens com quem estive, mas pela primeira vez, eu não sou a repetição da mulher que os homens tiveram. Agora eu tenho amor, tu tens fogo. Agora eu vejo os teus olhos, tu vês o meu rabo. Agora eu sonho, tu vives.
 
É uma merda sonhar com aquilo que queremos e sabemos que não vamos ter. Não era para ser, eu sei disso, e dói. É preciso fugir do amor, dos amigos, das pessoas. Não consigo dormir. Não tenho conseguido dormir bem nos últimos tempos. (Telefone toca. Atendo o telefone, fecho o computador e deito-me. Silêncio)
 
Texto: Catarina Teixeira
Photos: Zé Manel