Liberdade em excesso

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A liberdade em excesso traz-nos sempre coisas más
Vivemos numa era de descarte na qual cimentar emoções, projectar caminhos ou estabelecer bases nos parece demasiado moroso e antiquado. Investimos na rapidez, na esperança de engolir o mundo e de sorver o maior número de informação possível, não podendo aprofundar a forma como digerimos os estímulos e deixando tantos processos no nível inicial para que possamos iniciar o seguinte, ludibriando-nos com a conclusão de uma missão que na realidade nunca se concretizou além do modo tutorial. Ambicionamos fazer e ser de tudo um pouco, retardando decisões que podem ter um peso desadequado à morfologia social que nos é incutida. Exige-nos demasiado sangue caminharmos em direcção ao sublime, quando podemos desenrascar medianamente tantas facetas que nos assentam bem, consoante a circunstância e a nossa vontade imediata.
Trabalhamos para comprar feito porque aprender nos roubaria tempo de consumo a outras matérias. Pelo caminho, ficam estruturas gloriosas, erguidas a custo e sacrifício. Veículos de realização e estabilidade, segurança e eternidade que já não constam da equação que tantos de nós pretendemos solucionar. É melhor alugar do que comprar, para que possamos sair daqui e reiniciar tudo noutro qualquer lugar, adiando assim o que não necessita ser decisivo mas que deveria funcionar como chave mestra do portão da nossa vida. O nosso círculo de amigos vai girando para que possamos diversificar o cenário circundante, os amores são cada vez mais instantâneos, desde o seu início ao seu término e parece que alavancámos uma geração onde é meritório saber deixar para trás, onde esquecer é uma arte que pretendemos dominar e onde a liberdade se tornou uma forma de desresponsabilização crónica.
Substituir é francamente mais apelativo do que remediar e os remendos são coisa do tempo dos nossos avós.
Altura em que o factor sacrifício era um degrau do crescimento, em que o tempo despendido em determinada iniciativa lhe conferia maior valor e substância e em que o respeito e a glória advinham da nossa capacidade de nos equilibrarmos na mesma direcção. Os conceitos estão demasiado subvertidos para que os mais preguiçosos possam indagar-se sobre a realidade que por detrás deles reside.
Já ninguém é apologista do compromisso e muito menos se colocam Likes nas obrigações que dele é natural surgirem.
A humanidade vive para hoje sem equacionar o amanhã, extinguiram-se as uniões e os projectos de vida. Deixámos que se esfumasse da memória a noção de que a superação dos obstáculos requer persistência, paciência e perseverança.
É possível mudar de curso, de país, de parceiro e de rumo. Não me interpretem mal, sou adepto da possibilidade, mas entristece-me e assusta-me que ela nos transfigure num exército de desistentes indecisos.
Eu não quero ser livre de amores que exijam perdão. Ainda acredito que poderemos levantar-nos das quedas de mãos dadas, mesmo que o peso de outro nos possa prejudicar a velocidade do passo. Ainda acredito em percursos profissionais feitos de insistência e suor, nos quais a dignidade nunca será deitada ao chão pela pressa de acelerar o nosso reconhecimento. Ainda acredito em famílias que se exigem continuar a ver-se à frente, mesmo depois de todas as palavras feias que já foram ditas.
Ainda acredito no que acreditava querer ser e fazer há uns anos.
Não quero ser livre de acreditar. Quero saber que posso alterar o rumo a qualquer momento, tendo a certeza de que a minha vontade continuará a ser realizar os primeiros sonhos que a minha cabecinha formulou quando se permitiu a fazê-lo. Pretendo no dia em que fechar os olhos agradecer ter tido a força suficiente para me equilibrar no trapézio, não obstante de sob os meus pés residir a constante tentação de saltar para solos mais confortáveis.
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