Já me habituei aos cortinados

2
Acho que já me habituei aos cortinados.
O dia apressou-se a invadir o seu descanso, numa urgência estranha de ir defecar. Quando regressou à cama, quem o esperava por entre os lençóis gritava-lhe da sua ternurenta carência:
“Não te deixo! Não te deixo!”
Foi nestes modos que se apercebeu ser imprescindível sentir-se necessário. Enroscou-se de novo no calor infantil de quem o ansiava e sentiu-se seguro na sua demanda, em nome de adiar o início da rotina por mais alguns momentos.
De repente, era demasiado tarde.
Vestiu-se sem tomar banho, num daqueles conjuntos que idealizara para as fotografias que nunca tirara. Agarrou-lhe na mão e deixou que se passeasse pelo seu mundo. Entre o vazio dos sorrisos célebres e as prendas que lhe desmistificavam o talento. Ficaram o suficiente para que percebessem o quão vazio e divertido consegue ser o meio em que se movimenta. Fumou mais cigarros do que o habitual e deixou-se levar pela ideia de que estava com o aspecto que queria ter eternizado há uns dias atrás, sem querer concluir que está a anos luz de quem idealizara ser por esta altura. Não demoraram muito a que cedêssem aos mais básicos rituais da rotina humana, acabando por investir erroneamente o dinheiro que lhes falta numa mediana refeição que ambos fingiram ser-lhes satisfatória. Era o facto de a normalidade lhes ser atípica que tornava as coisas quase mágicas, ficando sempre aquela insatisfação de quem vive vidas suficientemente aprazíveis para que se tornem suportáveis. Regressou a casa só e na cama jazeu, bucólico e distante, na apatia de uma sequência de nicotina que mal lhe disfarçava o desencanto. As revistas eram tão patéticas quanto a sua noção de tempo e apenas a fauna circundante com quem coabitava lhe podia interromper a sua sintonia soturna com as faltas que a vida lhe facultava. Pelo serão fora presenteado com palavras galanteadoras de estranhos dignos de consideração, libertando pequenas pérolas aquosas dos seus olhos habituados a manifestar tais sinais de transbordo. O circo decorria delicado e licoroso e gostava sempre de se rever na sensação de ter ludibriado outro alguém a acha-lo tão especial quanto se achava a si próprio.  Quem lhe agarra com fulgor pela madrugada, olhava-o agora com cansaço e saturação. As mãos davam-se timidamente e competiam por um lugar ao sol.
Partilhado. No cansaço e no vazio. No calor da manhã e no frio. Do resto do tempo.
Exclamou antes do fechar os olhos:
“Acho que já me habituei aos cortinados.”
A isso e ao amor.
COMPARTILHAR
Artigo anteriorPIDE do Amor
Próximo artigoLook Book – Femme –

2 COMENTÁRIOS

  1. Tambem quero me habituar aos cortinados. Adoro o texto e a historia, quero uma assim para mim. Acho que um dia chegara pois ja encontrei a pessoa com quem quero partilhar meu dia a dia e viverei um dia em pleno esse amor.

    Beijinho grande
    Cristina Vieira
    P. Zé B.

  2. Já me habituei a ti e aos cortinados, que de certeza são lindos devido ao teu bom gosto. Adoro-te meu Buda, com a mais linda voz
    Beijinho grande e doce, Zé Bicho

DEIXE UMA RESPOSTA