Fazer sentido – Uma critica a mim próprio

7

Fazer sentido

É-me sempre difícil descrever com assertividade e clareza tudo o que gira em torno de um Darko que já fora Zé Manel dos Fingertips, e quase manequim, quase escritor, quase actor, sem nunca se assumir como nada disso embora já tenha feito de tudo. Que já passou pelo palco principal de um Vilar de Mouros e que já vi actuar sobre playbacks instrumentais em discotecas manhosas. Que já vi ser de uma petulância atroz numa qualquer ante-estreia de cinema e de uma humildade colossal ao ficar por mais de três horas a assinar autógrafos a desconhecidos que pareciam querer engoli-lo. É difícil porque na realidade ao ser um bocadinho de todas as coisas por tantas vezes, acaba por ser na maior parte delas coisa nenhuma. O público não perdoa o que não percebe e é incompreensível que alguém escreva letras com palavrões complexos como concupiscências e a seguir acabe num programa de serão da TVI. Podia ter sido brilhante, mas não foi. A sua praia sempre fora ser exactamente o que lhe apetece e claramente o petiz não cede a regras nem cria as suas próprias. Porque não podemos querer falar para o Público sobre as nossas excursões solidárias como sócio fundador de uma IPSS e a seguir aparecer na inauguração de uma qualquer perfumaria na TV7 Dias. Porque não poderemos tê-lo em conta quando actua com Rui Veloso ou Mafalda Arnauth e a seguir acaba as suas noites a fazer vídeos caseiros com ex-concorrentes dos The voices da vida. É difícil aceitar a riqueza do seu discurso num alta definição e depois perceber a ligeireza com que gere as suas redes sociais. É difícil inseri-lo numa categoria, na medida em que ele será sempre demasiado sedento de atenção e aceitação para que os intelectuais o tenham como sendo um dos seus, mas também demasiado complexo para que as massas consumidoras de modas o abracem sem mais questões. No fundo acaba por ser um híbrido, e os híbridos só tem público naqueles que são abertos a conhecer e a experimentar sem olhar a preconceitos e categorizações. Num país sem espaço para minorias, imaginem lá onde o rapaz se meteu. Não são muitos os que conseguem ter Ramp e Christina Aguilera na mesma playlist, ou lamentar a morte de Jeff Buckley enquanto comentam outfits de celebridades de terceira. A verdade é que o talento sempre esteve lá, mas ou diria que o rapaz tem um péssimo agente ou pura e simplesmente faz tudo como lhe apetece, e isso dá claramente mau resultado. A sua necessidade exagerada de que o aprovem em tudo talvez tenha sobrado daquele tempo em que diz ter sofrido de bullying apesar de se apresentar sempre com o outfit mais vistoso de uma sala, não percebendo que em última instância ele fora sempre o seu maior bully. Começou como menino prodígio e agitou as águas com a sua precocidade, mas rapidamente cedeu à vaidade e se desleixou na sua gestão e caminho. Daí a ser completamente trucidado por esta sociedade de matérias poucochinhas foi um instante. Ele esteve sempre a jeito e o que poderia ter permanecido intocável rapidamente resvalou para as sarjetas do domínio público. Ele está em todo o lado, mistura-se com toda a gente e além de querer ser diferente também quer ser toda a gente. Não sei se isto vos fará sentido mas a verdade é que aos 29 anos só sabemos de si uma coisa. Que ele se mantém e que ainda não desistiu. Que continua a cantar de forma competente e a manter a coerência de se manter incoerente. Acima de tudo, que se continua a manter. Não sabemos porquê ou a que custo, mas fica uma clara noção de que se importa mais com o tal reconhecimento do que com os rendimentos que da sua carreira advêm. De outra forma não seria possível querer lançar dois discos em dois anos sem uma tour que nos encha o calendário. Tal fragilidade torna-o um mimo para uma indústria de sanguessugas. Afinal o rapaz quer é as palmas e a sala cheia. Talvez seja essa a chave para a tal falta de regra que existe no seu percurso se o avaliarmos superficialmente. Agora diz que está a gravar um disco integralmente em Português, não tivesse o tema Para Nunca Mais, quanto a mim o pior do alinhamento do seu álbum de estreia a solo, sido também o seu maior êxito até à data. Poderia ser para manter este público de maior dimensão e repetir a fórmula. Mas não. Também já disse que a seguir vai voltar ao inglês. O público não cria afeição ao que não percebe. Tenho cá para mim que é daqueles que ainda crê mudar o mundo. Mas como poderá alguém mudar o mundo se não se consegue sequer mudar a si próprio? Nós gostamos de artistas que nos tragam certezas e não dúvidas. Um artista tem que fazer sentido. Será que ele se faz sentido? 

Gentilmente


Your inner self

7 COMENTÁRIOS

  1. Claro que esse rapaz faz sentido. É a nossa essência e integridade que nos mantém vivos e com amor no coração. Mesmo depois da decepção e da traição. O amor renova-se e é ele que nos alimenta e nos mantem fieis aos nossos principios.
    Mesmo ferido o coração não se pode fechar.
    Lyou

  2. ” O QUE NÃO SE PERCEBE INCOMODA E E DESTABILIZA AS MASSAS.” Esta é uma triste máxima que abarca a maioria dos humanos…..triste máxima que impede o caminho diverso, rico, e por isso glamoroso e diferente de quem ousa ser a diferença ou quem já nasceu na …diferença. Por mim amo a diferença e a multiplicidade de culturas, amo o surpreendente , a perplexidade, o estado apaixonante que me causa a diferença sendo que me salta de imediato ao olho e me “ensina” o coração a …amar.
    Tenho uma alma que me dita sempre o que de diferente devo aceitar sem grandes criticas ou ses….., e sinto sempre um enorme apreço por caminhos, ou deverei dizer …atalhos???…..que me levam ao mais brilhante, ao mais extravagante , ao mais fora de ….. por isso digo—SIM , um artista , uma pessoa se faz SENTINDO, só faz mesmo sentido se for SENTIDA, e sim….Darko , falta de regra, diferença, ousadia e tanto do tanto que é, FAÇA SENTIDO SENDO SENTIDOS, o resto é apenas um resto que podendo presentear a conta bancária não presenteia com toda a certeza a conta da alma e do coração.

  3. Você faz sentido sempre, meu querido! Nas suas coerências ou incoerências…nas certezas ou nas dúvidas… somos quem somos e é assim que deve ser! Adoro te ouvir cantar e também adoro ler o que você tem a dizer ! Beijinhos do Brasil 😘

  4. Muito duro consigo próprio. Acredite, não vale a pena. Há quem o faça (infelizmente bem) por si, sem permissão prévia. Tenho-o seguido muito próximo, por uma razão que um dia lhe direi. Firme e sensível, a continuar.

  5. Fazes sentido sim. Tomara haver mais Zés como tu. Grande ser humano, com um grande coração. E para mim a voz mais bonita e versatil que conheço Potuguesa. Bj. Fazes Sim Sentido. ” Os cães ladram a carroagem passa”. Continua como és nao mudes, gosto de ti com todas as tuasqualidades e defeitos. Quem for melhor que tu, ” que atire a 1a pedra” . Bj grande

  6. Fazes todo o sentido, por lutar pela tua carreira, pois és a voz mais bonitas que até hoje ouvi, és um lutador num mundo com imensa concorrência e com poucos apoios ou nenhum. És um exemplo a seguir pelos jovens e como ser humano, pelas causas a que te dedicas com todo o coração e ainda como um dos fundadores da associação que apoia as crianças desaparecidas, com corpo alma e ainda um grande tema (fomos, somos), assim como outras causas nobres como o video contra o bullyng, racismo, violência,(olhos no chão) o que fizes-te contra o preconceito que há em relação aos que amam diferente (freak show) e outros tantos temas que escreves-te e cantas-te, e que se fossem bem divulgados já estarias no top dos tops, coisa que um dia sei que vais conseguir, porque és um lutador. Beijinho grande, nunca desitas, tens tudo em ti para continuar a ser o grande cantor e ser humano que és. Felicidades para todos os campos da tua vida tu mereces

    Beijinho grande
    Cristina Vieira

DEIXE UMA RESPOSTA