Diz-me como tratas um livro

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Diz-me como tratas um livro e dir-te-ei quem és

 

Nunca consegui perceber muito bem aquelas pessoas que não marcam um livro, não o sublinham, não o vincam, é tudo tão virgem, tão amorfo tão insosso! Que destino triste desse livro. Materializam-se e, se um dia se sedesfolharem vão morrer conforme vieram ao mundo, quase imaculados, tocados por mãos macias, com medo de apagar as letras, páginas viradas cuidadosamente, não vá o solavanco sacudir as letras e mudar a história. E depois fica tudo adulterado e trocado o livro fica confuso, não se consegue explicar e fica com uma crise de identidade. Pois, os meus são uns vadios da literatura, já se reinventaram mais de mil vezes, adormecem com as minhas lágrimas, acordam sobressaltados com os meus histerismos, são apertados pelos meus dedos ávidos, beliscados quando não gosto da curva da história, uma vida aflitiva coitados. Quando vêm para as minhas mãos até ilustrações lhes faço, e, se não gostarem têm bom remédio, fazer amizades com elas. As ilustrações itinerantes. Lembro-me que quando a minha mãe me ofereceu a Metamorfose de Kafka foi um ponto de viragem, era pequenita e o animal foi adquirindo forma disforme e traços cada vez mais grotescos, cheguei ao ponto de ter medo que ele saltasse daquelas páginas com aquelas asas metálicas, lúgubres e viscosas. Aquela marcha vermicular, era ele que me viravas páginas com aquelas pinças …tinha asco de tocar no livro. Tocava nele cirurgicamente com os dedos hirtos, só faltava ir lavar as mãos a seguir, um horror. Mas isto sou eu e o meu modus operandi. Tenho até alguns que foram comprar cigarros e não voltaram mais, andam perdidos em casa de amigos só com um bilhete de ida. Qualquer dia tenho de os extraditar que eles já devem ter saudades do manicómio.

Lembro-me que o meu pai me dizia na escola, “os livros não são para escrever, quanto muito põe um post-it, eles já estão escritos”. Ele e o numeruclaususEu meneava a cabeça mas fazia sempre o que queria, a admoestação não passava dessa frase carinhosa mas inerte.

Cada um com a sua vivência nos dedos, cada um com os seus credos e ditados morais. Os meus livros são assim, daí ter tanto receio de pedir livros emprestados. Quando ia à biblioteca da escola e me finalizavam a entrega na minha mão a pedir o número de aluna ao qual acrescentavam ” Tem de vir conforme veio” era um grito surdo à minha imaginação…Lá andava eu com o livrinho sempre com lápis azul, a ter cuidado com tudo. Os meus livros são forasteiros, arruaceiros, levianos, falam entre eles, ensinam-se, trocam histórias e experiências, são mais sociáveis que os vivos.

Conclusão, não me emprestem livros que ganham um novo!

 

Regina Azevedo Pinto 

 

 

 

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2 COMENTÁRIOS

  1. Li todo o texto a sorrir!
    Pois eu também nunca percebi para que servem, por exemplo, os marcadores de livros! Nunca nenhum durou até o final da leitura. A dobra é muito mais prática e está sempre à mão… E quanto a escrever… bem emprestei os meus livros escolares sempre e sempre, sem exceção, tive que proferir o seguinte: "Desculpa, mas eles estão escritos de lado e muito sublinhados." Nunca tive reclamações!… Mas o rosto daqueles a quem emprestava mudava um pouco de cor quando eles ou eu os abríamos para verificar ou mostrar! É que eu não tinha exagerado nada quando dizia "escritos" e "sublinhados". Ainda hoje faço o mesmo em tudo o que leio, livros ou não, fica tudo sublinhado, apontado, desenhado de figuras geométricas das mais variadas ou flores do pior dos pintores! Entendo, porque folha que eu toque fica marcada!
    Mais uma vez, um texto extraordinário.

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