Dias de chuva

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Sol na eira e chuva no nabal”. Nunca pensei tanto em eiras como nestes dias e, em como são privilegiadas. Dias de chuva são dias introspetivos, de difícil digestão. Olhamos para o sol com olhos de esperança, e ele, está prisioneiro de nuvens e de um céu baço. Bem que tenta espreitar a todo custo, deve gesticular e esforçar-se mas, a teimosia das nuvens não o deixa dar a claridade da sua graça…Se calhar esta moléstia é mesmo necessária para nos por a pensar sobre a vida, sobre as nossas opções e, se estamos no caminho mais acertado. A falta de luz faz-nos encolher a alma, fica mais enrugada e contorcida, obriga-nos a olhar para o chão e não para cima, porque a chuva verga-nos. Será que o inverno taciturno nos compele ao pensamento de forma mais espessa? Começo a achar que sim. Tapamos o corpo, escondemo-nos nas roupas e olhamos para as pessoas de soslaio entre o cabelo e golas altas, como se tivéssemos a espreitar por uma janela que nos emoldura o rosto. É claro que o inverno também tem cor e alegria, mas a chuva de mãos dadas com o frio rouba-nos o fôlego. Parece que estamos a levar uma reprimenda por mau comportamento. Talvez a curva do crescimento aumente nestes meses, temos mais tempo para pensar em tudo, e o problema é que, quando se pensa demais, a intensidade da tempestade aumenta. Caminhamos por caminhos lúgubres e viscosos. Eu passo a vida a ter conversas de pé de orelha com sentimentos que se atravessam na minha passadeira emocional sem me pedirem autorização, tal como a chuva. Nem o guarda-chuva me vale…Sempre a sacudi-los e fingir que não os ouço, despenteiam-me as ideias e fico com a calma ensopada. Gripes emocionais é o que é, e a farmácia não vende o genérico do “solgripe”. Só lá para Março, que é para nos obrigar a pensar ainda mais sobre a vida!

E a Adele que me ocupa a cabeça com pensamentos maquiavélicos…ela e o I set fire to the rain” ao menos se deixasse de ser invejosa e explicasse como é que isso se faz era mais fácil. Era a esperança concentrada numfósforo. Abria já a janela de casa e acendia uma caixa inteira. Foguetes de fé a descer a calçada. Depois existia claramente um bonito fogo de santelmos que se erguia em sentido contrário até formar uma cúpula de vidro sobre Lisboa que fazia resvalar a água toda para o Tejo. Desideratos lunáticos polvilhados por uma vontadefrustrada e espalmada de sol.

Ainda dizem que dias de chuva também são bons e que “água é vida”. Pois, se isso fosse verdade não estariam a ler este delírio camuflado em forma de desabafo…

 

Regina Azevedo Pinto

 

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