Dia dos namorados

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Dia dos namorados, dia em que, supostamente, se celebra o amor.

Vêm-se nas ruas corações palpitantes em cima da cabeçadas pessoas. Prendas histéricas a saltar em forma de embrulho para fora das lojas, algemadas a uma mão subordinada a um coração apaixonado. Ramos vermelhos a colorir a visão dos transeuntes transbordando paixões exaltadas, que fazem cócegas irritantes aos corações solitários. Flores exuberantes e outras mais despidas, rodeadas de versos de poesia no ar que gritam sentimento, porque o amor nunca é pobre. 

Os corações acordam de um sono profundo e ataráxico, saltam para um trapézio cheio força e exorcizam todo o amor reprimido, sofrem uma morfogénese, respiramoxigénio, abrem os olhos e vivem, o amor vive e explode no dia 14

No meio destas cordilheiras sinuosas dos meus pensamentos, deparo-me com o Sr. Amor, no Chiado. Ainda duvidei se era ele ou não, mas aqueles olhos não enganam.

 – Ai não me atrapalhes Regina! Falamos depois que agora estou com muita pressa, não sabes que dia é hoje? Lá vens tu com os teus dramas, arre! – dizia ele ofegante  a fugir de mim e a cambalear ao mesmo tempo com a sua gabardine bege e chapéu à Carlos Gardel.

Está muito bem, pensei eu conformada. Dramas diz ele, já nem esse esquizofrénico tem tempo para mim. Encolhi os ombros e continuei o meu percurso pela rua do Carmocomo expectante da narcose de amor. O dia passou-se sossegadamente, ao que, quando regressava a casa, voltei a encontrar esse desgraçado, mas desta vez com uma postura diferente. Estava calmo, sentado numas escadas lúgubres, ignoto na sombra do seu pensamento. As suas bochechinhas cor de nácar estavam húmidas, as suas sobrancelhas descaídas com o pesar do seu desgosto e o seu semblante entorpecido. Aquele quadro de Paula Rego de amor baço comoveu-me, aproximei-me dele com passos tímidos e perguntei-lhe:

Então atleta está tudo bem? O natal do amor já passou? 

Ele desviou o olhar macilento para o chão cravado de pastilhas sem sabor e responde:

Não… preciso de amor, já é dia 15, já passei do prazo de validade, estou com frio, com cabelos brancos e sem encanto – murmurava.

– Entra, vamos beber um chá quente os dois, prometo-te que daqui a 365 dias nasces outra vez com todo o teu esplendor….embora o mundo esteja carente de ti todos os dias do ano! – sussurro-lhe eu enquanto fecho a porta de casa.

 

Regina Azevedo Pinto 

 

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