Constantino

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Quando reparei, já hoje era terça-feira e eu continuava perdido por entre o passar das horas. Neste momento sou uma personificação do impasse. Revisito todas as metas que já ultrapassei e guardo-as com orgulho como se de um anestesiante se tratassem. Por outro lado inquieto-me com tudo o que ainda não fiz e poderia ter feito e ainda mais com tudo o que ainda quero fazer. Sempre gostei de me sentir invadido por projectos e sonhos. No entanto, não consigo expulsar do olhar o desencantamento que me condena a ser inerte sempre que preciso de me combater. Sinto a alma envelhecida e aprisiono-me numa visão que desvirtua qualquer coisa que pudesse ser simplesmente agradável. Foi a meio da tarde que me senti na necessidade de convocar a minha amiga Ariel para uma pequena partilha de desilusões. Somos ambos jovens a vomitar vida. Semelhantes na clareza de raciocínio e sensibilidade atípica. Ambos de costas voltadas com a nossa geração, com a certeza do que é certo e a vivência do que é errado como pretexto para um hipotética integração. Ambos damos as mãos ao cansaço embora gostássemos de exigir muito mais de nós, pela certeza de que existe. Os dois assaltados pela dúvida de estarmos sós porque vemos coisas que os demais não conseguem ou porque simplesmente somos seres que não têm lugar aqui. Sabemos que precisamos de muito mais para que nos possamos desenvolver correctamente, mas também sabemos que o nosso desenvolvimento precoce fez com que tudo nos pareça demasiado patético para valer a pena o esforço. Estávamos no jardim Constantino, amparados por um banco verde do qual contemplámos o cenário bairrista, povoado de idosos, emigrantes e desalojados.
 

A mais recente aquisição da minha amiga atraía a atenção dos mais distraídos, sendo que um animal enternecedor é sempre um bom veículo de comunicação com os transeuntes. Rodopiámos por entre diversas respostas sobre o que seria a solução para a nossa letargia embora tenhamos total consciência de que enfatizar os assuntos nunca vai fazer-nos afastar do que é fácil compreender. Falta-nos pró-actividade e fibra para darmos uso a todas as ferramentas que a vida nos proporcionou. Todos precisamos de chegar a sítios onde nos custou chegar para valorizar cada passo da viagem. O caminho fácil nunca trouxe consigo o real sabor do sacrifício. Tudo o que nos doeu vai sempre dar lugar a um prazer maior no fim da travessia. E nós sabemos disso. No entanto, de nada adianta percorrer toda a teoria do existencialismo se na prática nos cingimos a ser suportáveis e não excepcionais. Foi nesse momento que uma senhora de setenta e quatro anos se aproximou de nós, com o pretexto de vir acariciar a pequena cadela Pug que neste momento se equilibrava no meu colo. Pouco ou nada demorou para que a senhora pousasse os sacos que consigo trazia e fosse ficando um pouco mais presente. Seguiu-se toda uma dissertação sobre como os animais tinham uma enorme importância na nossa vida. Pela lealdade que nos oferecem e pela capacidade de ficarem conosco por uma vida inteira. Recordo-me de ouvir a senhora frisar diversas vezes que eles nos oferecem muito mais a nós do que o contrário. No entanto, não consegui evitar pensar que até os animais são capaz de nos acompanhar uma vida inteira porque os alimentamos e lhes damos dormida. Com alguns humanos passa-se simplesmente o mesmo e talvez um animal não tenha a capacidade de procurar em consciência uma nova situação igualmente conveniente, se não talvez o fizesse. A senhora era uma ex-funcionária pública e gabava-se de ter criado todos os animais no “seu” ministério. Auto-proclamava-se uma sortuda e quase que foi enternecedora com tal constatação. O marido morreu em 1985, nunca teve filhos devido a uma esterilidade de nascença e desde então os animais eram a sua família. Muitos deles foram partindo com tumores e outras doenças que vêm com a velhice, mas a senhora nunca olhara a gastos para proteger os seus animais, deixando-os decidir se queriam morrer em casa, cremando-os e mimando-os de toda a forma e feitio. Consegui reter o nome de quase todos: O Fom Fom, o Didi, a Maria Madalena, a Joana, a Xana, o Mantorras, o Nico… Não consegui evitar sentir-me repugnado comigo mesmo quando a paciência começou a escassear-me para ouvir a história da simpática D.Gracinda. Por um lado, admirava a convicção com que ela dizia ser feliz com o seu séquito de bichos sem precisar de recorrer a um homem que lhe fosse pedir para ir buscar cerveja ou que gastasse o seu dinheiro. Por outro, sabia que o que a levava a estar ali a partilhar tanto de si com dois jovens estranhos era uma tremenda falta de comunicação com o mundo e uma avassaladora solidão. Nesse momento apeteceu-me simplesmente quebrar e chorar o meu egoísmo. Durante a conversa, a Ariel limitou-se a mandar-me uma mensagem para o telemóvel onde simplesmente me dizia que provavelmente aquela senhora seria ela dentro de alguns anos. Ela, que compra animais compulsivamente para preencher um vazio que tem a ver com a falta de resposta intelectual a que condena a sua natural superioridade de pensamento. Prometi a mim mesmo que ficaria ali até a senhora decidir que estava na sua hora. Sei que provavelmente não nos veremos tão cedo mas também sei que guardo dali um pouco mais de mim. Fomos presenteados com fotografias dos seus felinos, fiquei a descobrir que o Eng. Sócrates é de singo Virgem e que Passos Coelho é Leão como a minha amiga Ariel e acima de tudo fui inspirado a fazer muito mais por mim, todos os dias que sou obrigado a acordar neste mundo de tão difícil interpretação. Claro que o tempo de conversa foi ficando extenso e o momento de partir poderia ser facilmente constrangedor, no entanto, um Ucraniano embriagado resolveu pedir-nos um cigarro e acariciar a cadela, dando-nos espaço para que nos pudéssemos levantar e seguir a nossa viagem. A senhora deixou-nos com o aviso de que “não apareceu ali por acaso” e a última coisa que nos referiu foi que “pode ser que nos tornemos a ver por aqui um dia.” 

 
Eu espero que sim. De forma inesperada, claro.

Darko
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