Consciencialização de risco – A primeira gala

2

Nunca fui homem de madrugar e aceitar este desafio veio impor uma rotina à minha vida que me é estranha e essencial ao crescimento. Não sei bem o que me instigou a avançar, sendo que já tinha recusado tal desafio anteriormente. Mudam-se os tempos e senti que estava na altura de me despir de preconceitos e arregaçar as mangas para trabalhar num contexto que me é alheio. Exigi-me humildade e perseverança, depois de devidamente aconselhado para seguir caminho. Cheguei à venda do Pinheiro ensonado e cauteloso. O estúdio encontra-se no meio de nenhures e o sinal de rede é pouco, sendo que o alvoroço começa cedo e as pessoas passeiam-se como baratas no seu ritmo alucinante e sequenciado. O pequeno almoço já estava disposto nas mesas da cantina da Conceição, uma senhora orgulhosa do negócio próprio que criou e que nos permite alimentarmo-nos dignamente nestes dias que nos parecem eternos.

Pelos corredores vou cumprimentando as senhoras da maquilhagem, os elementos da Endemol, que bem vestidos e apressados nos dispensam o tempo que lhes resta para nos fazer sentir acompanhados, e chego ao camarim dos homens, onde três sofás, espelhos e alguns snacks nos convidam a permanecer nos tempos mortos que intercalam o frenesim dos figurinos.

De manhã somos maquilhados e vestidos com a nossa roupa somos entrevistados para o momento que antecede a nossa entrada no elevador. Fui o segundo a falar com a bonita e intimidante Cristina Ferreira. Há alguma coisa na sua aura de simpatia que nos transmite respeito e imponência, não obstante do gargalhar genuíno e das tiradas atrevidas que lhe saem em momentos de bastidores.

Logo depois é hora de almoçar, a ritmo acelerado, porque toda a construção do boneco vai começar. Quando chegamos à sala de caracterização somos recebidos pela extravagante e encantadora equipa do Sérgio Alxeredo. O Cortez tem uma personalidade acutilante e acolhedora, a Raquel parece um personagem de um filme do Tarantino, a Fátima assemelha-se a uma fada de filme com a sua longa trança branca e o seu olhar calmo e maternal e a Lilia, uma moldava de talento atípico, transmite-nos uma calma terna é profundamente fraternal. O chefe da equipa é daqueles sisudos de coração grande. Rigoroso e profissional, mas com o abraço e o sorriso que um pai deve ter. É clara a solidariedade na liderança e a solidez da equipa entre si.

image6

Demorei duas horas a fazer as tatuagens do meu Ed Sheeran, com uma Lilia precisa e paciente a segurar-me nos braços enquanto trocávamos, timidamente, algumas palavras.

image4

O ensaio começa a meio da tarde e nele são feitas as marcações de luz, a revisão da coreografia e a equalização do som. A música é passada duas vezes. Muitas vezes durante o ensaio parte da caracterização acaba por se desgastar, o que leva a que tenhamos que reconstruir parte das coisas.

O tempo escasseou com os atrasos naturais de um primeiro programa, que ainda requer afinações e vistorias, e eu acabo por decidir não jantar antes da gala. Não o poderia fazer com calma e não me apraz comer pouco tempo antes de performar.

http://www.tvi.iol.pt/programa/a-tua-cara-nao-me-e-estranha/53c6b39c3004dc006243d407/videos/–/atcnmee–videos/video/580bd41d0cf2e48931e73a1c/2

Num ápice já estava eu em palco, ruivo e num corpo estranho. Sentia-me uma mistura entre o Chucky o boneco diabólico e uma pessoa anémica, mascarado de playmobile. Os nervos foram tremendos e a dança é um velho fantasma. Quando entrei senti-me noutro mundo, com o peso do que me exijo a rasgar-me os ombros. Sei que a meio esqueci-me que sequer estava a imitar alguém e enquanto tentava não me esquecer de nenhum passo e não pensar num zilião de coisas deixei-me levar pela segurança que existe no meu piloto automático. Caso o Ed Sheeran não estivesse ali o Darko haveria de conseguir remediar um assunto enquanto eu, pobre José, me debatia para rodopiar com a minha piedosa bailarina. A adrenalina no final era inquietante e quando me sentei ao lado da Carolina no final da actuação ela pode perceber a minha apatia e estado de transe. Eu estava sem estar. Em digestão lenta e morosa.

image7

Os resultados foram medianos para o que me espero. Senti que fora melhor no ensaio. Senti que deixei as mãos voarem como eu faço, senti que não me lembrei de todos os pormenores. Percebi também que não cheguei ali para ver e vencer. Há gente muito boa, há atestados de que o talento não escolhe lugar ou género artístico e também há a noção de que nos completamos e equilibramos através de diferentes valências.

No final consegui raptar os petizes para gravarmos um vídeo que pretendo repetir semanalmente, de forma a recordarmos a tristes figuras a que nos propusemos com o coração aberto. Porque isso exige uma coragem que só os audazes contemplam.

image8

Blazer – A outra face da lua

T-shirt – Boombap

Camisa – H&M

Calças – H&M

Chapéu H&M

Botas – Eureka Shoes

COMPARTILHAR
Artigo anteriorRetro city
Próximo artigoTravestindo os nervos – Gala II

2 COMENTÁRIOS

DEIXE UMA RESPOSTA