As primeiras férias sem ti

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Finalmente pude encontrar-me com a família nos meandros mais recônditos deste nosso Algarve. Algures perto de Armação de Pêra, num sítio que o GPS não se atreve alcançar, está a casa onde nos escondemos do mundo para podermos estar conosco, num silêncio que raramente nos é concedido na velocidade dos dias. Eles sempre estimaram o isolamento. E eu começo a compreendê-lo e apreciá-lo também. Há sempre muito que fazer e em que pensar. Os horários que se teimam em cumprir e as tarefas que se exigem concretizar.

Muitas vezes há instâncias que amarrotamos como papéis e deitamos fora para um caixote pequeno que se encontra no canto mais escuro do sótão da nossa cabeça. Tentamos lá deixá-las sem lembrar que o peso é um inimigo indesejado do qual teremos que nos libertar assim que possível. O lixo implora para que o despejemos e enquanto o ignorarmos padeceremos de uma acumulação pouco saudável e que inevitavelmente nos vai condicionar de futuro. Para nós que ainda o vislumbramos, nem sempre felizes com tal facto. Vivemos assim a vida toda. Na hipocrisia de acreditarmos que a reciclagem se pode fazer sozinha e sem que tenhamos que sujar as mãos durante o processo.

Eu sempre fugi das férias em família. Fazem-me debater com sombras e fantasmas que adensão um escuro pouco confortável. Relembram, remexem e remoem reflexos de nós que preferíamos desconhecer.

Este ano é diferente. Este ano não só quis fazê-lo como também tive essa necessidade. A de proteger e mimar. Talvez até a mais impossível. A de substituir e colmatar.

O Pai já cá não está. As refeições são menos demoradas e mais simples. O barulho é maior e as crianças brincam de forma inconsequente e ruidosa como a infância pede. Todos nos esforçamos para chorar em segredo para que os outros não tenham que partilhar deste âmago que nos pesa e é tão recente e acutilante. Não tivemos tempo de o perceber. Não tivemos tempo de o percepcionar. Não houve digestão e só agora é que começamos a perceber realmente que ele cá não está.

Tomáramos nós que fosse mais fácil. Que fosse mais imediato. Que fosse um assunto passível de resolução. Como tantas diferenças que adiámos e deixamos para depois na expectativa de que a vida as solucionasse por nós.

Fê-lo da forma mais cruel e necessária a uma aprendizagem eficaz. A da perda. A da ausência. A do vazio. E agora aqui estamos. Em paz e em silêncio, a olhar para uma beleza natural tênue e desvanecida. A usufruir de uma harmonia vazia que talvez não tenhamos vivido em comunhão. Cada um de nós continua com o caixote cheio e a vergonha de o esvaziar, ainda que em conjunto, permanece, numa tentativa falaciosa de não confrontarmos os demais, principalmente os mais pequenos, com o facto de esta ser uma realidade perene, que irá sempre doer. Nunca sabendo se mais, se menos.

Eu a minha irmã olhamo-nos sem precisarmos de dizer quaisquer palavras. As lágrimas disfarçam-se, rasteiras, com o suor do calor. As crianças passam quase imperceptíveis ao lado desta realidade. E nós brincamos com elas, sabendo que o Pai não era dado a grandes brincadeiras, mas estava conosco.

Sempre pensei que fosse mais fácil. Nunca antes aqui quis vir para não ter que passar tempo na sua presença que jamais me compreendera em pleno. Esta talvez seja a minha herança. A incompreensão da sua ausência.

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