29 sem ouvir Roberto Carlos

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“Vinte e nove anos sem ouvir Roberto Carlos, que parva!” 

 

 Era sábado à noite, eu estava sozinha em casa, a única companhia que tinha era a dos micróbios gripados que se regozijavam no sofá e os meus cães que abanavam sempre esperançosamente a cauda cada vez que olhava para eles. 

Estava absorta em pensamentos e leituras, entre mensagens e telefonemas que insistiam em lembrar-me de forma gritante que era sábado à noite e um brufen resolveria a minha pseudo-doença rapidamente. No meio deste bambúrrio, uma música ocupava a sala, de forma vagarosa e osmeus ouvidos pareciam duas rosas a florescer lentamente à medida que iam dançando ao som da luz melódica que recebiam. Olhei para a televisão para acompanhar todo este processo e vi uma figura emblemática e familiar, quase em 5.º grau mas familiar. Era o Roberto Carlos. O cantor que roubava suspiros à minha avó. Vinte nove anos a ouvir repetidamente “Quando viemos de Angola trouxemos todos os discos dele, não ficou lá nada” sempre com uma voz adornada de um orgulho itinerante, diria mesmo intercontinental. 

Estava a cantar com uma orquestra maravilhosa em Abbey Road, em Londres, onde os Beatles em 1969, gravaram o seu 12.º álbum, onde ele reproduziu tão bem And I love her“. 

O cenário, o piano, os violinos e a sua serenidade de olhos fechados, que maravilha! Pois, estava a apaixonar-me por Roberto Carlos, pessoa que só conhecia pelos lábios entoados da minha avó e da minha mãe “Não percebo como não gostas das músicas dele, são tão bonitas!” Pois são, claro que tinham razão. 

Como fui tonta e preconceituosa por nunca ter afinado o meu ouvido, senti-me insensivelmente ignorante. Precisei de 29 anos e ficar um sábado  dormente em casa para perceber tanta idolatração por o homem de sorriso plácido que sempre me passou ao lado. 

Se calhar é a idade. Sempre o senti de forma epidérmica e não dérmica. Tudo tem o seu lugar tal como valor. Não há roubos de intelectualidade musical, mas sim o desenvolvimento e aumento da nossa orquestra interior.Há sempre novos acordes. 

Uns vão pensar que tenho um raso gosto musical (era o que eu presunçosamente pensava) outros, vão achar que eu era uma ignorante só por o ouvir decentemente agora, e com razão também. 

Ouvi o concerto inteiro, e, fiquei com pena quando terminou. 

No domingo de manhã liguei à minha avó e contei-lhe com um sorriso atrasado de 29 anos o que tinha estado a ouvir na noite anterior, ao que ela me responde prontamente: 

As músicas têm tanto sentimento não têm? – dizia ela ainda incrédula. 

Têm avó, tinhas razão!– exclamei eu a rir-me. 

-Oh, eu não consegui ver ao até ao fim porque o teu avô estava chato e quis ver o eixo do mal, mas quando vieres a Viseu no Natal mostro-te toda a coletânea, precisamos é de ver se o gira discos funciona!” – dizia ela do outro lado do telefone já a dirigir-se para essa caixa de música empoeirada. 

Ainda bem que ela não sabe o que é o youtube, iria perder todo o encanto. Iria “MPtrizar” memórias. 

Perante tanto entusiasmo disse-lhe que quando ele viesse a Portugal a levava  ao concerto. Só espero ainda ir a tempo de cumprir esta promessa! 

 

Regina Azevedo Pinto 

 

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